ARTIGO DE OPINIÃO: Sopa na Arte

17/11/2022 18:30

Existem vários locais no Planeta que têm vindo a ser fustigados com maior violência pelas alterações climáticas. Devido á sua localização geográfica, na convergência inter-tropical e a confluência a jusante de 9 bacias hidrográficas de rios de países vizinhos, devido à imensidão da sua costa e das extensas áreas de nível inferior às águas do mar, Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis a fenómenos climatéricos extremos. Ciclicamente, os campos e as culturas são inundadas, as habitações e outros edifícios são destruídos, deixam de existir as poucas infraestruturas. O acesso ao básico é inexistente. Secas, cheias, tempestades, ciclones e, somando a isso, conflitos religiosos, conduzem a sua população, já por si pobre, a situações de miséria e fome. Não obstante Moçambique albergar grandes reservas de gás natural, carvão  e outros minérios, e ter muita potencialidade em termos turísticos, elementos que movimentam e geram milhões, estas receitas não são canalizadas para colmatar as necessidades mais básicas dos que por lá vivem. 

Longe dali, muitas vezes no conforto das nossas casas, a viver uma realidade que temos como certa, sentimo-nos incomodados, indignados e revoltados com os que se passa em Moçambique ou noutro qualquer país de África, da Ásia ou do Planeta afetado por estas alterações. Promovemos convenções, manifestações e protestos. Por esta altura, os líderes e presidentes mundiais viajam até ao Egipto para participarem na COP27 Conferência das partes das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas que decorre naquele país, entre 6 e 18 de novembro. Uma vez mais são delineadas estratégias e assinados acordos com a finalidade de reduzir emissões e definir soluções de prevenção. Mas mais uma vez a maioria de nós tem a convicção de que de pouco servem.

Alguns ainda têm esperança e resistem, definem formas de luta pouco convencionais, que passam, por exemplo, pela ocupação de locais estratégicos ou por atirar sopa a pinturas famosas.

Surge então a dúvida: será isso legítimo? No caso da Arte, até que ponto devemos usar os elementos que definem a nossa identidade e a nossa cultura como meio de protesto para alcançarmos os nossos objetivos? Por outro lado, não será esta a melhor forma de se chamar a atenção: beliscar a sociedade ameaçando os seus bens mais valiosos? Na verdade atirar sopa a uma obra de arte é ainda muito mais do que isso. É atirar sopa a uma sociedade e a líderes que não cumprem com as suas obrigações para com o Planeta. 

Resta-me a esperança que esta não seja mais uma cimeira qualquer.

Uma informação: as pinturas que foram atingidas com sopa não ficaram danificadas.

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