ARTIGO DE OPINIÃO: “Sinto mais longe o passado, sinto a saudade mais perto”

20/12/2023 18:30

Serão poucos ou nenhuns os alunos da minha geração que terão passado ao lado da Balada da Neve, poema que era presença obrigatória nas festinhas de Natal da escola primária desse tempo. «Batem leve, levemente, / como quem chama por mim», esses versos que ainda hoje sabemos de cor – e que integram o livro Luar de Janeiro, publicado por Augusto Gil em 1909 – são também memória dos Natais que fomos, nessa infância que a literatura não deixa de sonhar, pois não há outra forma de revisitar tempos e lugares a que não é possível regressar. 

A ideia de que o Natal se vai perdendo à medida que a infância vai ficando cada vez mais longe atravessa, como uma dor afiada, o coração dos poemas que a pensam. Se Álvaro de Campos se refere a esse tempo de criança como aquele em que «ninguém estava morto», em Natal à beira-rio, de David Mourão Ferreira, a infância é também o tempo da juventude dos pais, «tão novos no passado!», e que só não morre na memória. Ao trazer a infância para perto, o Natal sublinha-lhe a distância, que melhor se vê à luz da saudade, aquela que sempre escolhe os lugares que foram ficando vazios à mesa. 

Tudo passa, menos o Natal. O Menino que É e o menino que fomos voltam a encontrar-se: entre a infância e a velhice, a Eternidade. 

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