O que têm em comum Juliana, de O Primo Basílio, de Eça de Queirós (1845-1900), e Manuel Lamas, de O Pecado de João Agonia, de Bernardo Santareno (1920-1980)? Ambas são personagens odiosas, em cujas mãos maldosas caem segredos de que se servem inescrupulosamente para destruir a vida alheia: Juliana, a serviçal, ameaça Luísa, a patroa, com a revelação da sua relação adúltera com Basílio, seu primo; Manuel Lamas, que esteve com João Agonia no mesmo quartel em Lisboa, põe os familiares do jovem ao corrente da sua prisão, provado o “delito” da sua homossexualidade.
Se a «alma perversa» de Juliana vê nas cartas que rouba a Luísa – e com as quais chantageia a patroa – a sua imperdível oportunidade de conseguir o dinheiro que lhe permitiria fugir à sua condição subalterna e servil, ao mesmo tempo que saboreia «aquele gozo de a ter «na mão», a Luisinha, a senhora, a patroa, a «piorrinha»!», a quem também chama «boa bêbeda», já o venenoso Manuel Lamas – cujo apelido é sugestivamente representativo do seu caráter, ou da falta dele – não aproveita as cartas que tem para entregar a João como forma de conseguir dinheiro, mas para o tornar refém de um imenso terror que tanto mais se adensa quanto essa entrega é adiada:
«João (Angústia extrema; aproximando-se de Manuel, a implorar.) Dá-me essas cartas…!
Manuel (Cruel.) Pois dou, João Agonia: elas são tuas!… (João estende a mão, pra receber as cartas.) Não as tenho aqui, homem, já te disse!… Mas um dia destes trago-tas: sossega, João!…»
Juliana acaba por morrer, vítima de um aneurisma, sem conseguir concretizar a sua ambição de «estrear vestidos, e dos bons!», de colecionar «pares de botinas das boas, das chiques» e de «dispor, governar, ser patroa», e Luísa também morre, fragilizada pela humilhação causada pela criada e pela culpa, que a consciência não perdoou. Quanto a João Agonia, marcado desde o nascimento pela diferença – representada simbolicamente pela cor verde dos seus olhos, cor que não se conhece a mais ninguém da família, «Ninguém, nem mesmo os velhos!», «vivo ou morto!» – também acaba por morrer, vítima do preconceito que leva o pai, o irmão e os tios a decidirem assassiná-lo, eliminando assim o pecado que mancha de vergonha a honra da família. Sob o pretexto de uma batida aos lobos, os homens saem de casa em direção à morte de João, que é conduzido até ao rio como um cordeiro que se sacrifica para aplacar o vexame e assim restabelecer a ordem numa comunidade de «homens inteiros». Não é por acaso que Rita, a mãe de João, compara um cabritinho que nasce cego ao próprio filho, pressentindo, para além da diferença, a sua enorme vulnerabilidade num meio familiar e social hostil à mudança, para o que concorre o local da ação: «Um qualquer lugarejo serrano e primitivo, em Portugal.»
Quanto a Juliana e a Manuel Lamas, personagens com um papel decisivo nos destinos de Luísa e de João Agonia, respetivamente, podem orgulhar-se de – em resultado do extraordinário trabalho de Eça de Queirós e de Bernardo Santareno – inspirarem sentimentos tais de revolta e de repulsa que desejariam os seus leitores que nunca a realidade pudesse, neste ponto, imitar a ficção.















