O SONHO COMANDA A VIDA!… e não apenas na escrita poética se procura o entendimento desta máxima, nem mesmo quando o sonho se rodeia de cenários mais egocêntricos. A História está repleta de exemplos de enormes conquistas por detrás de um sonho (ambições pessoais, projetos de vida, construções imperiais…). Sonhar alcançar, sonhar ser maior, sonhar para além do horizonte… como quem procura um tesouro ainda por descobrir!
Uma das obras que maior emoção e curiosidade me despertou em minha juventude, e que li com a voracidade de um rapazito que colecionava livros como verdadeiras pérolas brilhantes, foi “A Ilha do Tesouro”, de Stevenson, depois replicada em Banda Desenhada (por diversos autores, entre os quais o nosso saudoso Fernando Bento-1947). O mundo dos piratas, os mistérios dos mares e de ilhas perdidas, eram cenários de aventuras sem fim num mundo desconhecido e distante. Esta maravilhosa novela de aventuras não é apenas mais um livro de aventuras de piratas, a história transporta dentro dela as próprias emoções de um jovem, o inquieto Jim Hawkins, vivendo todos os riscos e perigos em mares infestados por piratas, mas resplandecendo sob os sonhos em redor de tesouros maravilhosos.
Recentemente, os artistas Xavier Dorison (argumentista) e Mathieu Lauffray (desenhador) voltaram a fazer-nos sonhar com estas aventuras de piratas e corsários em redor da procura do maior tesouro de sempre, o El Dorado, algures esquecido por entre a densa floresta amazónica, recuperando as aventuras de um Long John Silver revisitado, regressado aos mares, numa aventura final em quatro volumes desenhados com arte deslumbrante.
A obra originalmente editado em França pela Dargaud em 2007 viu agora edição em Portugal pela ASA, em parceria com o jornal o Público.
A história resume-se assim: Abandonada pelo marido, embarcado há vários anos numa expedição que partiu à descoberta do Novo Mundo, lady Vivian Hastings permaneceu nas imediações de Bristol, Inglaterra. Sozinha? Nem por isso! Consciente dos seus atributos, a Vivian não lhe faltam pretendentes… Os quais, todavia, desconhecem a sua preocupante situação real: financeiramente arruinada e, sobretudo, grávida… Tudo muda no dia em que Vivian recebe finalmente notícias do marido, lord Hastings, que terá descoberto o mítico tesouro de Huayna Capac. Para que o irmão possa ir ter com ele à América do Sul, manda despojar Vivian de todos os bens e pretende que ela ingresse num convento. Mas esta, recusando-se a fazer voto de castidade e de pobreza, decide empreender viagem para assim receber parte do tesouro. E, apesar dos avisos do Doutor Livesey, recorre a um bando de homens de índole duvidosa, cujo chefe é nada mais, nada menos do que o temível Long John Silver… Vivian faz um pacto de sangue com este pirata, que se propõe levá-la de barco até ao Novo Mundo a troco de uma parte do tesouro.
A história maravilhosa alia-se a uma narrativa artística deslumbrante, em pranchas duplas ou planos arrebatadores, num ritmo alucinante por entre ondas magistralmente desenhadas e florestas misteriosas, culminando na descoberta da cidade de ouro perdida entre o verde estonteante e as pragas mortíferas da selva infindável. E podemos enfim voltar a sonhar com esse distante mundo de piratas e corsários de nossa juventude.
De louvar, esta reedição da ASA/Jornal o Público.


















