De facto, apesar da «gravidade clerical do edifício» e da «paz dormente do bairro», a casa do Ramalhete não oferecia a Monsenhor Buccarini «os arvoredos e as águas de um jardim de luxo» de que a sua condição «de rico prelado romano» não poderia abdicar, considerando assim que aquele «pobre quintal inculto, abandonado às ervas bravas», habitado apenas por um cipreste e um cedro, não lhe enchia as medidas, e nem as da estátua de mármore, que Monsenhor, apesar de enegrecida, «reconheceu logo» – sim, que o quintal era inculto, mas o Monsenhor não – como Vénus Citereia o convenceram a ficar e lá foi ele pregar para outra freguesia, embora não se saiba se também em sentido literal.
Nesta matéria de casas, como noutras, às vezes é preciso uma mudança, e foi o que aconteceu quando Afonso decidiu ir habitar o Ramalhete. Tal decisão implicou largas obras e proporcionais despesas, que os Maias ainda tinham «um pedaço de pão» e «a manteiga para lhe barrar por cima.», como se referiu Vilaça ao desafogo financeiro da família cujos bens administrava. Entre essas obras contaram-se aquelas que permitiram a transformação do inculto quintal num espaço de «ar simpático», onde a abundância da água fez agora renascer a velha «cascatazinha seca».
Fossem imortais, como os deuses, as suas estátuas, e poderiam elas desdenhar dos pombos, da chuva e do sol, mas só no Olimpo é que existe perfeita conservação das espécies e nem consta que usem cremes UVA, alguém explique ao Baco que isto é só uma sigla; assim, não escapou a estátua de Vénus à necessidade de uma limpeza de pele – metáfora que faz ainda mais sentido se nos lembrarmos das expressões «carnação de mármore» e «carnação ebúrnea» com que o narrador esculpe a beleza de Maria Monforte e de Maria Eduarda – o que, se lhe devolveu o «seu tom claro», lhe emprestou também – e muito justamente – o esplendor useiro e vezeiro na Versailles do Grand Siècle, que à estátua de Vénus não basta apenas sê-lo, há que parecê-lo.
Quando Carlos descobriu que Maria Eduarda era sua irmã, deixou de a ver como deusa e passou a ver «aquele corpo dela, adorado sempre como um mármore ideal» como era na verdade: «forte de mais, musculoso, de grossos membros de amazona bárbara». Despida da sua condição de deusa, até os seus cabelos, antes de «um lustre tão macio», passaram a oferecer «uma rudeza de juba», e a bestialidade tomou, aos olhos de Carlos, o lugar da divindade. Curioso é perceber que a esta mudança de perspetiva não veio a escapar Vénus Citereia, também ela acabando descrita como tendo «grossos membros»; se é ainda sob o olhar de Carlos que neles reparamos ou se é o narrador omnisciente a descrever a estátua independentemente do olhar de Carlos, não sabemos. Não sabemos se a vemos como sempre foi ou se a vemos como passou a ser. Sabemos apenas que existem tantas realidades quantos os olhares.
Elisabete Bárbara
















