Hoje, basta abrir uma rede social para surgirem vídeos sobre ansiedade, depressão, autoestima, trauma ou relações. Em poucos segundos encontramos alguém a explicar porque nos sentimos assim e, muitas vezes, também a apresentar uma solução. Nunca foi tão fácil aceder a informação sobre saúde mental. Mas quando falamos de um tema tão sensível, estaremos realmente a ouvir quem tem preparação para nos orientar? E como se reflete esta realidade em contextos como o de Viseu?
As redes sociais tiveram um papel importante na normalização da conversa sobre saúde mental. Hoje fala-se mais sobre ansiedade, depressão ou burnout do que há alguns anos, contribuindo para reduzir o estigma e incentivando muitas pessoas a procurar ajuda. Contudo, esta maior abertura trouxe também um fenómeno preocupante: a proliferação de conteúdos produzidos por pessoas sem formação específica, que apresentam opiniões pessoais como se fossem conhecimento científico ou intervenção psicológica.
Em contexto clínico, esta realidade começa a ser cada vez mais frequente. “Marta”, 28 anos (nome fictício), procurou acompanhamento psicológico depois de vários meses a seguir influenciadores que lhe garantiam que todos os seus problemas resultavam de um “trauma não resolvido”. Chegou convencida de que precisava de uma terapia específica promovida nas redes sociais. Ao longo do acompanhamento, percebeu-se que o seu sofrimento estava sobretudo relacionado com ansiedade, perfeccionismo e dificuldades de regulação emocional. A informação que consumia, longe de ajudar, acabava por reforçar uma interpretação simplista e errada daquilo que estava a viver.
Mas o problema vai além dos influenciadores digitais. Cresce também o número de pessoas que oferecem “terapias”, “consultas”, “mentorias” ou “acompanhamento emocional”, recorrendo a linguagem própria da Psicologia, apesar de não possuírem formação científica nem habilitação profissional para o fazer. Em alguns casos, utilizam designações pouco claras ou apresentam-se como especialistas sem que o público consiga perceber quais são, afinal, as suas qualificações.
Este fenómeno começa a preocupar não apenas os profissionais de saúde, mas também os próprios reguladores. Em vários países tem vindo a ser discutida a necessidade de reforçar mecanismos que permitam identificar quem possui efetivamente formação para comunicar e intervir em áreas sensíveis como a saúde mental. Independentemente do modelo adotado, a discussão revela uma preocupação comum: quando está em causa a saúde mental, deveremos confiar mais em quem tem milhares de seguidores… ou em quem dedicou anos à formação, à supervisão e à prática clínica?
Importa esclarecer que partilhar experiências pessoais não é, por si só, um problema. Muitas pessoas encontram conforto ao perceber que não estão sozinhas. O risco surge quando essas experiências são apresentadas como soluções universais ou quando se fazem diagnósticos, recomendações terapêuticas ou promessas de cura sem qualquer base científica. Em saúde mental, uma intervenção inadequada pode atrasar o acesso ao tratamento correto e prolongar o sofrimento de quem procura ajuda.
Em regiões como Viseu, este desafio assume particular importância. Tal como acontece no resto do país, também aqui as redes sociais fazem parte do quotidiano de milhares de jovens e adultos. Paralelamente, as dificuldades de acesso a cuidados especializados podem levar algumas pessoas a procurar respostas rápidas na Internet, precisamente quando mais necessitam de informação rigorosa e de orientação qualificada.
Hoje, nunca foi tão fácil encontrar alguém disposto a dar respostas para o nosso sofrimento. A verdadeira questão é outra: estaremos a escolher quem realmente está preparado para as dar?
David Almeida
Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu
965800042















