O termo “Fake News” refere-se a informações falsas que circulam principalmente nas redes sociais. Muitas vezes, são criadas para gerar sensacionalismo e atrair visualizações para sites ou páginas, com o objetivo de lucrar com publicidade. As fake news também são usadas para reforçar um pensamento, por meio de mentiras e da disseminação de intolerâncias, destruindo pessoas, empresas ou afetando instituições democráticas, o que acontece, sobretudo, em períodos eleitorais. Trata-se de desinformação: sejam mentiras intencionais ou conteúdos não verificados. Opostas a notícias, misturam-se com elas, pondo em causa o debate livre e informativo.
A disseminação de notícias falsas e desinformação, embora não seja um fenómeno exclusivo do século XXI, tem gerado uma crescente preocupação recentemente devido ao uso intensivo e ao amplo alcance dos meios de comunicação digitais. Este impacto global das fake news e da desinformação tem atraído a atenção de profissionais de diversos setores da sociedade. Este fenómeno questiona a nossa capacidade de discernir o que é verdadeiro ou falso. Porém, o problema vai para além da falta de verificação dos dados ou de manipulação por parte dos emissores de conteúdo. Há fatores psicológicos profundos que nos tornam vulneráveis à desinformação e entender estas dinâmicas é crucial para combater o problema.
Porque acreditamos em “fake news”?
A resposta é complexa, mas, em parte, as pessoas acreditam em fake news porque somos seres sociais. Confiar no que os outros nos dizem e ter a capacidade de acreditar nas pessoas são competências universais do ser humano. Temos uma capacidade cognitiva para criar e aceitar informações simbólicas como se fossem a própria realidade. Essa predisposição pode ser tanto adaptativa quanto não adaptativa. No entanto, é também esta capacidade cognitiva que faz com que acreditemos em fake news. A nossa visão do mundo envolve aquilo que o mundo nos parece ser e como os outros pensam e agem. As fake news e teorias da conspiração emergem especialmente durante tempos de incerteza, apresentando-se através de explicações simplistas sobre as situações.
O viés de confirmação é uma tendência psicológica natural em que as pessoas procuram e acreditam em informações que reforçam as suas crenças pré-existentes, ignorando ou rejeitando informações contraditórias. Este fenómeno é amplamente explorado na disseminação de fake news. As pessoas tendem a sentir-se mais confortáveis com conteúdos que corroboram as suas visões de mundo, especialmente em temas polémicos, como política ou saúde.
Por exemplo, uma pessoa que desconfia da ciência das vacinas vai procurar, partilhar e acreditar em notícias que sustentam essa visão, independentemente de serem falsas. Em vez de questionarem a credibilidade das fontes, muitas vezes aceitam cegamente porque essas informações proporcionam um conforto psicológico, confirmando o que já acreditam.
O enviesamento na atribuição de um significado – tendência para as pessoas verem padrões ou causalidades em situações aleatórias ou não relacionadas pode levar a crenças e inferências erróneas, por exemplo, acreditando em teorias da conspiração. A falta de explicações elaboradas e detalhadas sobre determinado assunto abre também espaço para o enviesamento da proporcionalidade – grandes acontecimentos têm que ter grandes explicações.
A procura do ser humano pela coerência, que lhe permita atribuir significado e evitar o desconforto cognitivo, leva a que descarte o que contraponha a sua perspetiva, equilíbrio e consonância. É este ser humano o consumidor de notícias (independentemente do seu carácter verdadeiro ou falso), que aquando da receção das mesmas, tenderá a manter e confirmar as suas convicções – o efeito perigoso surge quando se tratam de notícias falsas e boatos – não permitindo outras perspectivas, mantendo o ciclo de disseminação e desinformação.
Se a informação/notícia não corresponde ao que acreditava previamente e os dados são contraditórios às suas crenças, estes serão analisados com maior cuidado, procurando confirmar e manter as suas crenças, mesmo que não sendo verdadeiras perante os novos dados.
As Emoções e a Propagação de Fake News
Outro fator central na psicologia das fake news é o impacto das emoções. A desinformação tem muitas vezes um apelo emocional forte e as notícias que evocam medo, raiva ou indignação têm maior probabilidade de se tornar virais. As emoções intensas reduzem a capacidade das pessoas para analisar criticamente e racionalmente a informação. Por isso, uma notícia alarmista ou sensacionalista, mesmo que falsa, tende a ser partilhada mais rapidamente do que uma notícia equilibrada e factual.
A pandemia de COVID-19, por exemplo, gerou uma onda de desinformação alimentada pelo medo. Notícias falsas sobre a origem do vírus, métodos de tratamento e teorias da conspiração proliferaram nas redes sociais, muitas vezes tendo um impacto devastador na saúde pública. A reação emocional de pânico levou muitas pessoas a procurar respostas rápidas e confortantes, mesmo que infundadas, em vez de confiar em informações verificadas e cientificamente rigorosas.
Quanto Mais Vemos, Mais Acreditamos
O efeito da verdade ilusória é outro fenómeno psicológico que ajuda a explicar por que acreditamos em fake news. Este efeito refere-se à tendência de as pessoas acreditarem numa informação falsa após repetidas exposições a ela. Quando uma notícia falsa é amplamente disseminada e surge repetidamente no nosso feed de notícias, o nosso cérebro começa a tratá-la como familiar, o que a faz parecer verdadeira.
Este fenómeno é amplamente explorado pelas campanhas de desinformação. A repetição frequente de uma mentira torna-a mais crível aos olhos do público. É por isso que algumas teorias da conspiração, apesar de serem repetidamente desmentidas, continuam a atrair seguidores – a simples repetição ao longo do tempo cria uma ilusão de veracidade.
Redes Sociais: Amplificadoras de Fake News
As redes sociais são um campo fértil para a disseminação de fake news. Por um lado, a velocidade com que as informações circulam permite que notícias falsas se espalhem rapidamente, antes de serem verificadas. Por outro lado, os algoritmos dessas plataformas são projetados para manter os utilizadores engajados, promovendo conteúdos que geram mais interações, independentemente de serem verdadeiros ou falsos.
Além disso, as redes sociais favorecem a criação de bolhas de informação, onde as pessoas seguem e interagem principalmente com quem partilha visões semelhantes às suas. Isto reforça o viés de confirmação e dificulta a exposição a pontos de vista divergentes ou a factos que possam desmentir fake news. Por exemplo, se alguém segue apenas páginas e pessoas que partilham teorias da conspiração, terá mais dificuldade em ser exposto a informações precisas que desmintam essas teorias.
Por Que Nos Tornamos Vulneráveis?
A vulnerabilidade à desinformação tem raízes em características cognitivas e sociais fundamentais:
1. Cognitive overload: No ambiente digital, somos bombardeados com mais informações do que conseguimos processar de forma crítica. O nosso cérebro, sobrecarregado, muitas vezes aceita informações simples ou emocionais, que exigem menos esforço para serem interpretadas.
2. Confiança social: Quando vemos amigos, familiares ou figuras de autoridade partilharem uma notícia, temos maior tendência a aceitá-la sem questionar, assumindo que, se alguém confiável o partilhou, deve ser verdade.
3. Desconfiança nas instituições: A crescente desconfiança nos meios de comunicação e nas instituições científicas tem levado muitas pessoas a procurar fontes alternativas de informação, que, muitas vezes, são menos rigorosas e mais propensas a disseminar fake news.
Como Combater as Fake News?
Embora o combate à desinformação seja um desafio significativo, existem formas de mitigar o seu impacto:
1. Educação para os Media e Literacia Digital: Ensinar as pessoas a avaliar criticamente as fontes de informação, a questionar a credibilidade das notícias e a identificar fake news pode reduzir significativamente a sua propagação. O desenvolvimento de competências de literacia digital, especialmente nas gerações mais jovens, é uma arma poderosa contra a desinformação.
2. Plataformas de Verificação de Factos: Incentivar o uso de plataformas de verificação de factos, que verificam a veracidade das notícias, é uma forma eficaz de conter o avanço da desinformação.
3. Desenvolver o Pensamento Crítico: Promover o pensamento crítico e a abertura ao diálogo é crucial. Ensinar as pessoas a questionar as suas próprias crenças e a estar abertas a factos que contradigam as suas opiniões pode ser a chave para uma sociedade menos polarizada.
4. Regulação e Responsabilização das Plataformas: As plataformas digitais precisam de ser responsabilizadas pela disseminação de fake news. Medidas como a rotulagem de conteúdos falsos ou a penalização de contas que promovem desinformação são passos necessários para controlar o problema.
Num mundo cada vez mais interligado, a defesa contra as fake news começa em cada um de nós, como consumidores críticos e responsáveis de informação.
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Daniela Júlio Lopes















