ARTIGO DE OPINIÃO: Pêro Vaz de Caminha e a carta a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil

22/05/2024 18:30

(Edição em Banda Desenhada)

 Carta de Pero Vaz de Caminha é o principal relato do “achamento do Brasil” pelo navegador português Pedro Álvares Cabral. A carta de Pero Vaz de Caminha é considerada hoje o mais importante documento histórico a respeito do Descobrimento do Brasil. 

Pero Vaz de Caminha era o escrivão oficial do rei de Portugal Dom Manuel I e viajou com os outros tripulantes nas frotas de navios comandadas por Pedro Álvares Cabral, que chegaram até o litoral baiano em 22 de abril de 1500. A missão dada pelo rei Manuel a Caminha era simples e ao mesmo tempo importantíssima: relatar o que havia nas novas terras descobertas – principalmente se havia metais preciosos. É importante ressaltar que D. Manuel já sabia, desde ao menos dois anos antes, que o “Brasil” já existia. 

Recentemente, e integrada na coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD, vimos editada a obra que retrata em Banda Desenhada a leitura da carta por Pero Vaz de Caminha para Cabral e outros tripulantes. A obra, com uma capa muito sugestiva, surgiu em abril, foi publicada pela primeira vez pelo historiador português Manuel Aires de Casal no Brasil, na obra Corografia Brasílica (Imprensa Régia – Rio de Janeiro, 1817). 

Parte dela veio apenas a público, pela mão, de um historiador espanhol, João Bautista Muñoz, no século XVIII. A publicação integral da epístola acontece mais tarde, em 1817, quando o padre Manuel Aires de Casal, sacerdote secular do Grã-Priorado do Crato, a partir de uma cópia existente no Arquivo Real da Marinha do Rio de Janeiro, a publica em Corografia Brasílica ou Relação Histórico-geográfica do Reino do Brazil. Pêro Vaz de Caminha começa por descrever as peripécias passadas pela armada liderada por Pedro Álvares Cabral, com indicações sobre as várias etapas da expedição com destino à Índia, até ao surpreendente e inesperado achamento de um território novo. Pêro Vaz de Caminha descreve com admirável vivacidade e agudo sentido de observação, o encontro com a gente local, os indígenas, registando magistralmente para a posteridade esse momento maior que foi o contacto do mundo ocidental, por interposta presença dos portugueses, com essa parte desconhecida da humanidade. A Carta a el-rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil faz parte das leituras do 9.º ano de escolaridade.

Do escrivão português pouco se sabe. Desconhece-se a data precisa do seu nascimento, pensando-se que terá sido por volta de 1450, muito provavelmente no Porto, Acredita-se também que terá falecido, em dezembro de 1500, na Índia, vítima de um ataque de Indianos muçulmanos em Calecute.

A adaptação/argumento desta obra é de André F. Morgado, da Guarda. A arte pertence a Tainan Rocha de Lima, formado em desenho e banda desenhada na Quanta Academia de Artes, onde posteriormente foi coordenador, e agora leciona ilustração. Desenhou Savana de Pedra, tendo figurado entre os finalistas do prestigiado Prémio Jabuti com esta obra. Em Portugal, foi publicada a obra Que Deus te Abandone (Polvo, 2015), ilustrada por si e escrita por André Diniz, previamente publicada pela editora brasileira SESI-SP nesse mesmo ano. Foi convidado a expor os seus trabalhos no XIV Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja (2018).

Nesta recriação artística, num registo quente e dramaticamente colorido com os tons ardentes daa terras brasileiras, os elementos históricos e o cruzamento de culturas predominam sobre o rigor do desenho, manchado prancha a prancha pela velocidade da narrativa. Os ambientes dão força a alguns pormenores de uma beleza simplista, os nus dos índios e as suas pinturas corporais disfarçadamente sugeridas, os trajes europeus esboçados, as legendas com autonomia (ou não estivéssemos perante uma carta). 

No conjunto temos uma obra sugestiva e cativante, sobretudo para quem nunca leu a Carta, e uma boa oportunidade para o fazer a partir desta edição em BD. No final apresenta-se um bom e enriquecedor dossiê pedagógico, com diversos documentos e anexos interessantes. Boas leituras. 

Carlos Almeida


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