Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Este ano tem sido pródigo em mortes inesperadas. De pessoas que conhecíamos muito bem. De pessoas que, embora não fossem tão próximas, nos acompanharam pela vida fora. Morre aos poucos um tempo que foi nosso e com ele vamos morrendo nós também.
Com as músicas do Jorge, embalámos desejos e utopias, num bairro do amor, onde há sempre lugar para mais um. Na terra dos sonhos, feita a lápis de cor, ninguém se pode enganar, basta abrir os olhos e ouvir bem o coração.
Ao som das suas composições, expressámos o que nem sempre somos capazes de pedir – Encosta-te mim! Ao ouvi-lo, perdoámo-nos pela nossa falta de coragem, imperdoável é o que não vivi. Na sua voz inconfundível, ouvimos o rugido infernal das nossas veias a tremer em noites de angústia e solidão, estendidos sozinhos na praia ao relento, apetecendo-nos desistir da estrada. Com ele, ganhámos a força necessária para continuar, enquanto houver ventos e mar.
Muitas vezes, trocámos de cama nas encruzilhadas da vida e ao som das suas músicas nos erguemos para encontrarmos a estrela-do-mar e as chamas invisíveis que nos incendeiam o peito quando alguém quer à força ser dono de nós.
Como ele, também nós temos as chaves do céu e do inferno e não somos capazes de decidir qual delas abrir, pois nem sempre anda alguém junto à tempestade para nos ajudar.
Com ele, quantas vezes nos deixámos rir da nossa história, lambendo e disfarçando lágrimas, escondendo-nos a vida inteira na rotina dos dias, destilando o choro e o riso, pedindo lume com o nosso passo inseguro à espera do paraíso de um só olhar.
Com ele, aprendemos que a liberdade é uma maluca, mas sabe quanto custa um beijo. Com ele, continuamos a indagar o nosso destino – E Portugal de que é que estás à espera?
A gente vai continuar, umas vezes tendo quase tudo, outras vezes tendo quase nada, ao som de uma valsa carente, fazendo figuras teatrais de um palhaço pobre a suplicar amor com cara de anjo mau, à espera do fim.
Pois é, há quem viva escondido a vida inteira, porque tem duas almas em guerra e nenhuma delas vai ganhar.
Esta noite estou tão frágil.
Vou continuar a ouvir-te, dando voltas ao sol, até a música acabar.
















