ARTIGO DE OPINIÃO: Para a Ana Luísa Amaral

07/09/2022 19:30

Com 66 anos de idade, faleceu no dia 5 de agosto, a professora, a investigadora, a escritora, a tradutora Ana Luísa Amaral. Permaneceu a Poeta. Permaneceu o seu exemplo cívico.

Muito se tem falado nos últimos dias desta mulher e da sua obra. Até parece que a conhecíamos bem e de perto, ao partilharmos muitos poemas seus nas redes sociais. Somos normalmente assim os portugueses. Já disso se queixaram outros, muitos antes de nós. Temos uma tendência natural para perceber e reconhecer o talento dos nossos depois da sua morte. E é pena! Inveja, falta de atenção, ignorância, má vontade, falta de autoestima, dificuldades em merecer o que é nosso e idolatrar o estrangeiro, porque mais longe e não nos ofusca, descurando o que está tão perto? Muito já foi escrito a propósito deste traço do nosso destino português. 

No ano letivo de 2015, acompanhei alunos de Humanidades do 12.º ano numa visita de estudo ao Porto. Entrámos na mítica e inconfundível livraria Lello. Era a primeira vez que aí entrava. Nem sempre conseguimos fazê-lo, dado o número de visitantes que se aglomera à porta. Fiquei emocionada. Todos ficámos. 

Gosto muito de livrarias. Daquele seu cheiro peculiar. Daquele colorido das lombadas nas estantes ou sobre as mesas e os balcões. Apetece-me tocar nos livros. Sentir-lhes a textura, saborear-lhes as letras, as palavras, uma aqui outra acolá. Dialogar com os títulos. Subir as escadas, pendurar-me nas prateleiras, ouvir o ranger dos meus passos na madeira. Imaginar-me a viver naquele espaço.

Deambulei por esta livraria, uma das mais bonitas que conheço. Recordo que me enterneci ao ver a Biblioteca Joanina da minha velha Universidade, a biblioteca do palácio Nacional de Mafra e uma igreja transformada em livraria e biblioteca numa rua da cidade de Maastricht, onde entrara por mero acaso.  Cruzei-me com um pequeno livro de poemas de Ana Luísa Amaral. Ainda pouco sabia da autora.

Era o dia 24 de abril. Nesse dia, a minha filha Ana Luísa fazia anos. Estava ali o seu presente. A escolha foi feita pela coincidência dos nomes e o amor pela palavra poética que partilhamos. Peguei no livrinho. Folhei-o, como costumo fazer antes de os comprar. Dirigi-me ao balcão para o pagar. Peguei na minha caneta e escrevi uma breve dedicatória de mãe.  Mais tarde, ao ler a sua obra, percebi que a filha desta escritora aparece nomeada muitas vezes nos seus textos e comovi-me. No último dia 5, quando morreu a Ana Luísa Amaral, a minha filha, a Ana Luísa, recordou este meu gesto e partilhou comigo a sua emoção. 

Como professora de Literatura, nas aulas do 12.º ano, nos últimos anos, foram algumas as vezes que li com os meus alunos poemas desta mulher exemplar pela sua atitude cívica na defesa do feminismo, enquanto afirmação dos direitos humanos, e da liberdade de amar independentemente do género. Mas mais do que o elogio da cidadã afirmada, da escritora premiada, sobretudo em Espanha, quero reler convosco um dos seus múltiplos escritos, como a maneira mais simples de lhe prestar homenagem. Escolhi o poema que transcrevo. Para mim, uma definição da sua arte poética.

ENTRE AS DUAS E AS TRÊS

Queria falar do que não tem concerto:

as letras desenhadas e compostas

com que confundo o espaço do papel,

a angústia compassada no contar

e a súbita alegria de ser eu

penosamente, às duas da manhã

Queria escrever do que não tem lugar:

a branca, doce e sonolenta estrada

onde espaçadas as palavras crescem,

suavizadas pelo lento sono

que devagar percorre as coisas todas

penosamente, às duas da manhã

Queria dizer do que não tem conserto:

ou seja, eu; ou seja, o papel branco

sombrio agora por já ser demais,

as letras excedentes e sonoras

desmembrando o silêncio e a noite toda

penosamente, às duas da manhã

Só então falarei do que ficou:

compassada alegria desenhada

na angústia de dizer sem me contar,

o papel confundido de impotente

e todavia, prontas as palavras.

Quase às três da manhã. Penosamente.

 O sujeito poético procura na noite insone o conserto para um desconcerto interior.  O seu.  Escutamos, neste poema, uma voz que afirma a necessidade de escrever no papel branco, no vazio da folha, a urgência inconformada da escrita. O texto emerge sonoro, excessivo até.  Mas o “eu” permanece no interior oculto das palavras, numa alegria, numa serenidade apenas desenhada, traçada no papel. Uma hora ou quase de apaziguamento. Entre as duas e as três. Poesia. E nada mais. Com pena. O que fica. 

Aqui, a poesia aparece-nos como a necessidade de libertação, apesar de incompleta e sofrida, por parte daquele que escreve no meio da noite, metáfora do vazio à espera do preenchimento. Do labor poético. Do único consolo. Da paz que não há por dentro e que só é possível contemplar no papel. Na escrita. Com pena de não ser também na vida.

Decorre a feira do Livro do Porto. Este ano homenageia Ana Luísa Amaral, no porto que escolheu como abrigo até à morte. Lá fui e comprei mais um dos seus livros. 

Voltarei a ler alguns dos seus poemas este ano nas minhas aulas. Como num ritual de passagem.


Subscreva a nossa Newsletter Informativa

Receba as novidades todas as semanas no seu email.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *