ARTIGO DE OPINIÃO: O ESPETÁCULO INVISÍVEL

07/08/2025 18:28

Há um momento, quase sempre silencioso, que se repete em cada nova encenação que dirijo. Não tem hora marcada. Às vezes acontece a meio de um ensaio; outras vezes, surge num gesto tímido durante uma improvisação, ou até no instante em que um jovem canta, pela primeira vez, com verdade. É nesse momento que percebo: algo mudou.

Sou encenador há muitos anos, e ainda me comovo com o que o teatro musical é capaz de fazer com — e por — os jovens. Chegam muitas vezes encolhidos no corpo e na voz, habituados a esconder-se nas sombras do mundo, a acharem que não têm lugar ou que não têm nada de especial a dizer. Mas o teatro, com a sua exigência e o seu encanto, não lhes pergunta se estão prontos. Vai chamando por eles, cena a cena, até que se revelem.

A música abre frestas na rigidez do dia a dia. A palavra teatral dá nome ao que sentem e não sabem dizer. O grupo acolhe. O palco desafia. E, pouco a pouco, aquilo que era medo transforma-se em presença. Aquilo que era silêncio transforma-se em voz. Aquilo que era dúvida transforma-se em brilho.

Tenho visto jovens reencontrarem-se consigo próprios ao vestirem outras personagens. Ganham confiança, escuta, coragem. Criam laços, constroem identidade, enfrentam limites. O teatro musical dá-lhes ferramentas para a vida — e dá-lhes sobretudo uma pertença. Um lugar onde ser, onde crescer, onde falhar sem medo, onde celebrar o que se é.

Não enceno apenas espetáculos. Acredito, cada vez mais, que enceno processos de transformação. E essa transformação, por vezes discreta mas sempre profunda, é o que me move. Porque nenhuma luz de cena me emociona tanto quanto aquela que se acende por dentro — e que, uma vez acesa, raramente se apaga.

António Leal

Encenador / Director Artístico

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