
Além de ser um dos romances mais emblemáticos de Eça de Queirós (e de toda a narrativa literária do Portugal de final de século), este “Crime do Padre Amaro” é uma obra-prima do realismo nacional que mergulha nos meandros da hipocrisia e corrupção moral da nossa sociedade do seculo XIX (e que ainda hoje perduram em muitos setores da nossa sociedade).
A história (exemplo da verdadeira história proibida) passa-se em Leiria, e é por demais conhecida da maioria (série na televisão, filme polémico, adaptações várias). O jovem padre Amaro Vieira, cuja apetência pelos prazeres terrenos (diga-se carnais), deixa-se conduzir por uma paixão proibida pela bela Amélia, jovem devota e provinciana. À medida que o relacionamento entre os dois se torna mais íntimo e profundo, as consequências trágicas desenrolam-se aos olhos de todos, entre as posições profundamente conservadoras do dever religiosos e as emoções rebeldes de um desejo profano. Numa crítica mordaz às falhas da Igreja Católica e às tensões sociais da época (em muito semelhantes ao que hoje se vive), esta narrativa de Eça leva-nos de forma envolvente e perturbadora numa viagem pela nossa própria condição de humanos falíveis e pecadores.
Adquiri esta semana uma nova versão/adaptação desta maravilhosa obra em Banda Desenhada, integrada na coleção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA EM BD ( volume 8), edição conjunta da LEVOIR e da RTP. A primeira versão deste romance foi em 1975.
A religião como convenção social, a vida sacerdotal sem vocação e como conveniência social, os casamentos por conveniência, a hipocrisia e o despotismo do poder religioso, a vida dissoluta de um certo clero, são assuntos que orientam a narrativa, alguns deles muito atuais ainda hoje (o celibato dos padres; a pedofilia e assédio entre o clero, os padres pais e padrastos).
Eça nasceu na Póvoa de Varzim, em 1845. Escreveu diversos romances. Elemento importante da Geração de 70, participou nas “Conferências do Casino” , foi jornalista, diplomata, Cônsul. Homem atento e conversador, faleceu em Paris em 1900. Distinto escritor, grande criador de espaços e intimidades, foi fundamental neste movimento realista de alerta e crítica social através da literatura .
André Oliveira, um dos melhores argumentistas de banda desenhada em Portugal, com mais de uma vintena de obras publicadas em nome próprio, entre livros e minicomics, em diversas editoras nacionais, é o autor da adaptação deste romance, e Ricardo Santo(ilustrador, dono de um estilo de ilustração fresco e modernista, vive atualmente em Barcelona, onde exerce a atividade de designer industrial e é ilustrador, animador e autor de BD no tempo que lhe sobra), são os autores desta adaptação em BD.
A obra lê-se de um fôlego, entre a curiosidade em descobrir como são representadas as “cenas picantes” da história, e a admiração e prazer em analisar cada pormenor das vinhetas ora divertidas ora provocantes em pormenor ou contexto. Com uma apurada construção dos personagens essenciais, manutenção de um panorama cromático uniforme, respeito pela natureza das pessoas e dos lugares, temos aqui uma bela obra para leituras nestas férias, e para engrandecer qualquer biblioteca pessoal ou associativa.
Boas leituras. Boas férias.
Carlos Almeida – leitor/editor/colecionador de BD
















