Tenho defendido, e já o escrevi, que o problema da saúde, em Portugal, não é da qualidade/disponibilidade de médicos e/ou de enfermeiros, nem até de falta de recursos financeiros ou do défice crónico que as suas contas apresentam repetidamente.
O problema é de gestão, ou antes, da falta dela.
Enquanto foi num ou noutro hospital, episodicamente, o funcionamento em rede e na partilha, foi tapando os buracos. Agora, com mais hospitais com dificuldades de resposta e com a morte de um bebé, no hospital das Caldas, supostamente por falta de médicos e atrasos na prestação do serviço, o problema é abertura de telejornais e tema de debate com especialistas e políticos.
Com as férias dos profissionais, baixas por esgotamento, a vinda de turistas e emigrantes, com o aumento da ida às urgências, em tempo de férias, o problema vai agravar-se.
Vejamos os números que corroboram a minha ideia de que o problema é de gestão hospitalar, aquém devia ser dada mais autonomia na contratação dos profissionais.
Mais de metade dos obstetras inscritos na Ordem dos Médicos trabalha fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS), sendo que o problema se agrava quando constatamos que a maior parte destes tem 55 anos ou mais, precisamente, a idade a partir da qual estão desobrigados de fazer urgências. De um total de 59.000 médicos, só 31.000 estão no SNS, e 24% têm mais de 65 anos.
Com menos de 70 anos, há 1.591ginecologistas/obstetras inscritos na Ordem dos Médicos, estando 748 no SNS e 843, no privado ou no estrangeiro. A faixa etária dos especialistas no SNS situa-se entre os 55 e os 65 anos, sem terem, como escrevi, de garantir serviço de urgências.
Quanto ao valor/hora extra que o SNS paga aos seus especialistas é de 17€, pagando aos tarefeiros que vão colmatar as falhas entre 35 a 50€. Acresce que, vindo do tempo da “troika”, há um despacho que proíbe os médicos de prestarem tarefas nos hospitais onde trabalham, o que não faz sentido algum.
Tudo isto, em termos de envelhecimento da classe médica não era previsível? Faz sentido haver um diferencial tão grande nos valores pagos por hora extra? Não deviam os sucessivos governos já ter revisto as carreiras e os índices remuneratórios? Não podia, perante o panorama que se arrasta, e era previsível, ter tomado medidas que evitassem esta sangria, este êxodo dos médicos do público para o privado? Na minha humilde opinião, podia, bastava fazer gestão, e antecipar o que se avizinhava, com um alto grau de probabilidade de vir a acontecer a curto prazo.














