As feiras, mercados populares de genuína memória que se dilui nas profundezas da História nacional, fazem também parte do memorial gastronómico associado ao território de Lafões. Famosas foram as feiras de Vouzela, desde que El rei D. Dinis concedeu Carta de feira mensal a Vouzela em 12 de dezembro de 1307. Oliveira de Frades ainda se gaba da sua Feira Franca, também conhecida pela feira de maio. Em S. Pedro do Sul desde miúdo me habituei a seguir a minha mãe na “carreira” até às Feiras “nova” e “velha”, ambas ocupando espaços alongados sobre as pedras das calçadas onde se espetavam os ferros segurando centenas de tendas, exibindo maravilhas e novidades nunca antes vistas.
Nestas feiras se exibiam também belos exemplares gastronómicos, produtos de uma pureza ímpar provenientes da produção artesanal de muitos agricultores da região. Mas os feirantes também se aprimoravam na confeção de alguns petiscos de consumo no espaço da feira, dos quais destacamos o “arroz de feira”.
Prato de alguma simplicidade na sua confeção, adaptando-se às condições existentes para cozinhar, podia ser alimento base de qualquer família de feirantes, tanto quanto oferta para quem de passagem pela feira se adiantasse a recorrer a uma refeição rápida na feira. Na carta gastronómica de Lafões podemos encontrar duas versões deste prato, uma delas mais completa e com final mais feliz. Aproveito para acrescentar que degustei recentemente este prato em restaurante da região de Lafões e poderia afirmar que se pode incluir no conjunto das melhores receitas da nossa gastronomia de Lafões, ombreando com outros exemplares de arroz (arroz de lampreia, arroz de pato, arroz de marisco, arroz de polvo, …).
Na versão preferida, que inclui os enchidos de porco, podemos enunciar os seguintes ingredientes: a carne de vitela, o chouriço de carnes, o feijão catarino ou encarnado, a banha do porco e o azeite natural, folha de louro, ramo de salsa, colorau, polpa de tomate, o arroz, o sal e a pimenta e o alho.
O feijão é cozido depois de previamente demolhado de véspera. A carne cortada em pedaços pequenos é temperada com sal e alho esmagado. Num tacho leva-se ao lume a refogar o azeite e a banha, a cebola e os alhos picados, vai-se mexendo até alourar. Junta-se a carne, a salsa, o louro e o chouriço inteiro ou cortado às rodelas grossas. Junta-se depois o colorau e o tomate, quando a carne ficar aloirada. Junta-se uma chávena de água quente e caldo de carnes, se houver. Mexer e deixar estufar em lume brando. Acrescenta-se depois a calda do feijão aos poucos, calculando para que o volume tenha até três vezes o volume do arroz (para cada chávena de arroz umas três de calda). Junta-se depois o arroz, mexendo e deixando cozer lentamente. Retificar os temperos e acrescentar um pouco de picante. Retirar o chouriço, cortar às rodelas grossas, e servir por cima do arroz com salsa picada. Acompanha bem com os nossos vinhos de Lafões tintos ou brancos, ligeiramente refrescados.
Seria interessante recuperarmos esta iguaria por aí nas nossas feiras ainda existentes. Bom apetite.
Carlos Almeida (Vice-Presidente da Confraria dos Gastrónomos de Lafões)
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