Todos conhecemos a origem desta expressão, originalmente da autoria de Tomás Ribeiro, mas que eu alterei ligeiramente. Nos meandros do último milénio, Portugal teve a chance de espalhar as suas sementes por todo o mundo. Na minha opinião, em nada demonstrámos marasmo nesta história recheada de poetas e escritores que louvaram o peito ilustre lusitano, adornada de intrépidos conquistadores e navegadores hercúleos, alastrada pelo mundo fora nas sagas visionárias dos nossos reis progenitores. Dir-se-á: uma história que define a História. A causa do título: é-me dado a entender que todas essas deixas de outrora foram revogadas por nós, Portugueses. Esta distância autoproposta às próprias raízes revela-me a deficiência holística das plantas neste jardim luso. Vejo, melancólico, o corromper da essência patriota. E com as salinas nacionais premiadas de excelência, de certeza que é a terra que não se deixa salgar, sr. Padre!
Em primeira instância, não acho nada correto que falte aos Portugueses o dever de conhecer o que é seu, e posso enunciar exemplos anatemáticos ao nível da literatura. Na minha ótica, temos um portefólio riquíssimo que flora no período medieval, marcado por trovadores, pela poesia palaciana humanista e de onde se destaca o renomeado Gil Vicente. Chega o Classicismo e esta coletânea embrenha nas tendências barrocas e num Camões renascentista, que compensou o que não enxergava para os lados com o que descortinava para a frente. Foi no romantismo que surgiram as luminárias Júlio Dinis e Almeida Garrett, concomitantemente ao realismo queirosiano e ao simbolismo nobre. No meio de tantos “ismos”, destaco Pessoa e não o omitirei. É gritante que Portugal carece deste conhecimento que se mostra, sobretudo, interdisciplinar, pois a escrita escorreita do nosso Nobel Saramago ou de Padre António Vieira carimbam cada leitor com o conhecimento histórico que cada obra desenha. Esta insipiência é já de longa data – lembrem-se que o nome de Saramago fora riscado, pelo governo nacional, da lista de potenciais candidatos a um Prémio Nobel anterior. Continua, e eu observo-a diariamente, quando “Mensagem” é, para um adolescente, o mero quociente entre 44 poemas e 9 aulas da disciplina de Português.
Vejamos também, ainda no cômputo, que a subtração de 36 reis portugueses a 44 poemas pessoanos dá 8. Analiticamente, não serão necessários tantos neurónios para provocar o folhear de um livro de História de Portugal. Para quem quiser ir mais longe nos cálculos, nem sequer são precisos 2 por cada dinastia. Mais uma vez, eu zurzo o desinteresse generalizado nesta matéria por parte de quem não a estuda diretamente. Dói-me sempre que me relembro que, ainda por cima, a nossa história é a mais digna de memória. Ao conhecê-la, voltamos à Romanização e quase sentimos os suores frios nos preliminares de cada investida bárbara. Para os mais apressados, é possível começar por resistir aos árabes na expansão muçulmana ou logo pelo início da formação do Condado Portucalense, em 868. Com folga, damos um saltinho à Reconquista Cristã e, não tarda, encontramo-nos dentro da União Ibérica. Inevitavelmente, esbarramos na caravela colossal que se aventura pelas rotas de comércio e expansão, por serendipismo e não só. É por estes fascinantes anais, caídos no esquecimento, que a ignorância nos sai dispendiosa. Após sismos, revoluções, monarquias, invasões, repúblicas democráticas e contrademocracias, achamos por bem olvidar… Não irá a história repetir-se quando todo o advento da Revolução dos Cravos cair no esquecimento?
Noto, frustrado, o desvanecer da nossa essência, quando deliberamos que deliberar não é necessário. Entristece-me que, por exemplo, a propósito das celebrações de Abril, permitamos a abertura das portas da frente ao pináculo da corrupção das nobres raízes lusitanas. Afinal, é mesmo o próprio Homem que não se deixa salgar, ao pintar o nosso Dia da Liberdade com o alastrar da dita cuja. E ai de quem se manifeste! Que fique bem calado! Ficou assim o 25 de Abril estranhamente marcado pelo direito à livre fala e o depauperar da mesma pela imposição do silêncio. A ironia da situação nem sequer é percebida… Mas ainda a procissão vai na praça pois, na tentativa nada idónea de pedido de mil perdões, os representantes supremos do nosso governo acharam por bem erguer o idioma da corrupção publicamente, em detrimento da Língua Pátria e Mãe. Tudo isto num encómio irrisório que soou a falta de verticalidade. O idioma vernáculo assistia, invejoso, pois nunca fora assim louvado pelos indivíduos que lhe dão a cara. No silêncio do Panteão Nacional, o sr. Teófilo rebolar-se-ia no seu túmulo…
Sustentando a sua inspiração nas novelas brasileiras, os timoneiros nacionais insinuam que devemos mudar de idioma. Quando a língua natal é questionada em patamares tão altos e expostos, não é de espantar que qualquer indivíduo amorfo e acrítico aceite pacificamente a adulteração do lusitano linguajar. Isoladamente, vejo esta questão do desinvestimento na pureza da língua mãe como o reflexo do caráter questionável de quem a coloca. Num mundo movido a comunicação, falar bom Português é um dever que, como outro qualquer, só depois de praticado e de desenvolvidas as ações necessárias que permitam o seu acatamento, permite colher as respetivas benesses. Ser Português por ser é a afirmação de uma nação. Desenho com o lápis da lástima e da acrimónia a negligência de muitos daqueles que deveriam zelar por esse aspeto.
A título exemplificativo, vejamos a música de autoria portuguesa. É factual que há uma transladação acentuada para o uso de línguas estrangeiras, etimologicamente divergentes da nossa, como a inglesa. Percebe-se, no caso, pois o inglês é básico e pensar é um trabalho difícil, daí ninguém querer desenvolver o esforço necessário… Percebe-se, porque aprender a comunicar e pintar com uma língua tão deleitosamente intrigante como a nossa é algo árduo…. Percebe-se perfeitamente que queiramos ser vistos como ignóbeis, inertes e desalinhados com o que é nosso e só nosso. Deixemos a tendência progredir e, daqui a uns dias, cantemos a pulmões cheios o peito ilustre americano! Brindemos os palcos portugueses com “Nova Iorque, menina e moça” e as gáudias tascas do norte com “As sete mulheres do Mississípi”. Enfim, “Deixa-me rir”…
Por contraste, e talvez por sarcasmo divino, no estrangeiro somos colocados num pedestal em qualquer uma das áreas da atuação artística ou científica. Esta antítese irónica é irracional e descabida. Por cá, quem conhece e louva Maria João Pires e Dulce Pontes? E António Damásio, Raquel Oliveira ou Nuno Peres? E António Lobo Antunes ou Agustina Bessa-Luís? Só quem se dá ao esforço de saber mais porque, de resto, pouca publicidade lhes é dada. Não nos enganemos! Têm pouca abrangência apenas em Portugal, enquanto no resto do mundo são louvados e justamente dignificados pela arte que compõem e ciência que mobilizam. Os Portugueses são aqueles com melhor formação para todos. Para todos, menos para os Portugueses… Penso na excelência destas luminárias, e reparo: ainda bem que se salvam lá fora, porque cá dentro ninguém os safa! Acaba por ser vantajosa esta crescente fluidez para o exterior, pois amplifica a reputação nacional com o talento que aqui seria ignorado. Os emigrantes portugueses espalham o âmago português, o valor quintessencial do que é a nossa nação, mas que, fatalmente como o é o destino, escolhemos negligenciar.
Havemos de aprender que “o que é Português é bom”, nem que seja ensinados pelos internacionais. Com esta mentalidade cresceremos na competitividade que constitui o capitalismo global. Seremos reconhecidos quando nos apercebermos do nosso potencial e da nossa capacidade de cosmopolitismo, há já 500 anos demonstrado. Deixaremos de ser o mero apêndice dos nuestros hermanos. Porque não reiterar o Portugal passado? É ouvir, ler, conhecer, pensar, comer, vestir, valorizar – omnimodamente galvanizar a Pátria. Isso basta. Porque nos fazemos pequenos, como lobos na pele de ovelhas? É mais provável que seja por inércia do que por modéstia, para mal dos nossos pecados.
Há a falta de referências culturais e de tradição, numa sociedade abjetamente ingrata que se desvia por caminhos degenerados. É a atitude ovina de rebanho que é autodestrutiva.
Mas há esperança, neste Portugal em que “tudo vale a pena” quando a índole não decide ser falsamente humilde para disfarçar a moleza. Há que ser Português e erguer este “valor mais alto” que está com dificuldades em se alevantar. É nosso o mister de identificar o Português como característica primária, e, sendo ótimos ou menos bons, defender os empreendimentos que sobre essa ordem atuam. Importa defender o que nos identifica perante as outras nações como se de uma família se tratasse, sem deixar de lado a crítica social, chave do desenvolvimento, desde que em contexto que não nos vá apear.
“Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nos pertencem, sou dos sonhos e das ilusões que são nossos, ou foram, ou vão ser. É daqui que eu sou, é aí que eu pertenço.”
Dinis Silva (estudante do 12º ano do curso científico humanístico de ciências e tecnologias no Liceu Alves Martins, em Viseu)
















