Quando se trata de exames, há quem passe e há quem não passe. Todos nós sabemos que é assim. Esquecemo-nos, no entanto, daqueles casos em que os exames não aprovam ou reprovam alunos, mas aprovam ou reprovam autores. Há autores que, independentemente do exame, passam sempre, não há qualquer perigo de retenção. Outros há que passaram e deixaram de passar, nunca mais ninguém os viu, há aqueles que deixam passar ou passam a deixar, e aqueles que não voltarão a passar. Lembrei-me agora de uma frase do Gandalf, do Senhor dos Anéis – «You shall not pass» – que me parece adequada para sinalizar a fronteira entre os que são bem recebidos e os que são convidados a sair. Os que são convidados a sair são, naturalmente, os mais incómodos, aqueles que perturbam a ordem ou que a questionam, aqueles que não deixam passar nada. Picuinhas. Autores assim são difíceis de tratar, olham para o mundo como se o pudessem mudar, nunca estão contentes com nada, o que significa estarem descontentes com tudo. É pô-los a andar. Se nos obrigam a olharmo-nos por dentro, para as vísceras, é pô-los fora. A literatura quer-se asseada, bem dizia o Alencar, perfumada e engalanada, sem cascas de melancia e outras que levem o leitor a escorregar no pensamento crítico. E assim uns encalham e outros singram, que o vocabulário marítimo sempre nos ficou bem, sobretudo quando estamos a afundar.
















