Manuel Alegre nasceu em maio de 1936. O poeta acabou de ser condecorado, pela segunda vez, pelo Presidente da República, no dia da apresentação da sua mais recente obra Memórias Minhas, em Lisboa, no dia 15 de abril, na Fundação Calouste Gulbenkian.
Desta vez, Marcelo Rebelo de Sousa surpreendeu os presentes, atribuindo-lhe uma nova comenda, a da Grã-Cruz da Ordem de Camões. O escritor e histórico combatente pela liberdade na vida e na palavra ficou comovidíssimo. Todos sabemos a grande admiração que tem pelo nosso bardo, o maior da nossa língua. Basta que convoquemos apenas um dos seus livros de poesia que lhe é inteiramente dedicado: Vinte poemas para Camões.
Memórias Minhas,fazendo jus ao título, trata-se de um livro autobiográfico. Todos os que lidam de mais perto com a sua obra literária reconhecem esta aliança, muitas vezes, indestrinçável, entre a vida de Manuel Alegre e a sua escrita. Só que desta vez o poeta ou o narrador não se ocultam sob máscaras ou papéis ficcionados. Manuel Alegre aparece-nos como o homem, o militar, o político, inteiro, cru e sem artifícios de linguagem.
Estas memórias datadas, nem sempre de forma cronologicamente linear, ocupam trinta e seis capítulos. São, além de tudo, histórias da História de um país visto com as lentes da memória de um cidadão ativo, empenhado, que atravessou várias décadas de opressão até ao «dia inicial inteiro e limpo», o dia vinte e cinco de abril de 1974, como dizia a sua amiga Sophia de Mello Breyner Andresen. Essas memórias não ficam, contudo, nessa data, continuam até ao presente.
Se, por um lado, encontramos as suas raízes ancestrais, a sua genealogia, o avô, a avó, a tia, os pais, a sua infância e juventude em Águeda, já metaforizadas nos romances Alma e Terceira Rosa; por outro, conhecemos o desportista, o ator, o estudante de Coimbra nunca vista, a sua amizade com Adriano Correia de Oliveira e António Portugal, as suas primeiras intervenções na Academia, a referência a alguns dos seus textos feitos hinos, que só mais tarde seriam publicados em Praça da Canção e O Canto e as Armas, manuscritos que corriam clandestinamente de mão em mão, fugindo da Censura.
Nestas páginas, encontramos o soldado que teve de partir para a guerra da Jornada de África, as perseguições de que foi alvo pela polícia do regime, plasmada no livro O Homem do País Azul, o exílio forçado em França, o contacto com intelectuais fugidos de Portugal e de outros países, defensores da liberdade e da democracia nas suas pátrias distantes, mas presentes. Manuel Alegre intuiu abril, ainda antes de abril acontecer.
Depois do regresso a Portugal, para participar na primeira grande manifestação do dia 1 de maio em Lisboa, assistimos ao seu envolvimento político ao lado de muitos companheiros do Partido Socialista, que ele representou no Governo e na Assembleia da República, durante largos anos. Vemo-lo, ainda, como um homem incompreendido, inconformado com alguns destinos do seu partido, desiludido com alguns dos seus, lamentando que a sua esquerda não fosse bem aquela, sentindo-se, afinal, um exilado dentro do seu próprio país. Manuel Alegre explica-nos as razões que o levaram, por duas vezes, a ser candidato à presidência da república.
Depois de abril, para além do tom revolucionário que tão bem a caracteriza, a sua obra assume, sobremaneira, um tom de reflexão, de inquietação, sobre a essência da vida humana. Com a publicação de Senhora das Tempestades, a sua poesia ganhou uma outra dimensão mais metafísica e transcendental, tão bem apreciada por Vítor Aguiar e Silva.
Trata-se, em suma, de um livro obrigatório para os seus leitores e até mesmo para os seus detratores. Estas Memórias são como o próprio autor afirma «uma espécie de legítima defesa» em abono da verdade que é a sua e não a que outros querem que seja. O homem, o escritor, quis gravá-la com o seu punho.
O autor confessa que, para ele, escrever sempre foi um ato de resistência e um ato de libertação, agora cada vez mais necessário, num mundo deserto de poesia, de filósofos e de profetas, carregado de homens de contas e de tecnocratas.
Manuel Alegre deixa-nos um legado, o testemunho de um homem e de um tempo para que nada fique por esclarecer.
















