ARTIGO DE OPINIÃO: Memórias de um beijo

29/07/2026 18:30

Julho está a acabar.

Escrevo ao som da música de o (os) Trovante.

Não seria a primeira vez que o faço, mas esta vez não é igual às outras. Faleceu Luís Represas. Não sabia que estava doente e a notícia provocou em mim um vendaval de emoções profundas. Como se fosse da minha família ou um amigo, chorei sem conter as lágrimas: “o mar dos olhos também sabe a sal”.

Este grupo, as suas músicas e esta voz acompanharam muitos momentos da minha vida como a de tantos de nós. Sabemos de cor(ração) as letras que entoámos tantas vezes e assistimos a alguns dos seus memoráveis concertos.

Ouço mais uma, duas, três vezes, um dos mais belos poemas compostos pelo Luís e musicado por João Gil: “Memórias de um beijo”. 

Evoco uma viagem de muitos dias a França. Nos finais dos anos oitenta. Quatro jovens professores percorreram muitos quilómetros de estradas a ouvir ininterruptamente a cassete com as músicas deste grupo. Era um vira a cassete e toca o mesmo! 

E cada vez que os oiço, sobram-me as memórias e as perguntas para as quais não encontrei respostas. E os dias e os sonhos, muitos deles, ficaram por sonhar.

As memórias são

Como livros escondidos no pó

As lembranças são

Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite

Sem perder a procurar

O tempo, ou o espaço

Que é indiferente p´ra poder sonhar

Lembras-me uma marcha de Lisboa

Num desfile singular,

Quem disse

Que há horas e momentos p´ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré

Com uma calma matinal

Quem foi

Quem disse

Que o mar dos olhos também sabe a sal

Quem foi que provocou vontades

E atiçou as tempestades

E amarrou o barco ao cais

Quem foi, que matou o desejo

E arrancou o lábio ao beijo

E amainou os vendavais

Julho está a acabar e ainda bem! Foi um mês de longas canseiras e de mortes injustas, prematuras, inesperadas.

A música tem ajudado a mitigar a dor destas horas em que escrevo as lágrimas que o coração não segura. 

Agosto trará o sabor a férias. Precisamos de amainar os vendavais.


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