Julho está a acabar.
Escrevo ao som da música de o (os) Trovante.
Não seria a primeira vez que o faço, mas esta vez não é igual às outras. Faleceu Luís Represas. Não sabia que estava doente e a notícia provocou em mim um vendaval de emoções profundas. Como se fosse da minha família ou um amigo, chorei sem conter as lágrimas: “o mar dos olhos também sabe a sal”.
Este grupo, as suas músicas e esta voz acompanharam muitos momentos da minha vida como a de tantos de nós. Sabemos de cor(ração) as letras que entoámos tantas vezes e assistimos a alguns dos seus memoráveis concertos.
Ouço mais uma, duas, três vezes, um dos mais belos poemas compostos pelo Luís e musicado por João Gil: “Memórias de um beijo”.
Evoco uma viagem de muitos dias a França. Nos finais dos anos oitenta. Quatro jovens professores percorreram muitos quilómetros de estradas a ouvir ininterruptamente a cassete com as músicas deste grupo. Era um vira a cassete e toca o mesmo!
E cada vez que os oiço, sobram-me as memórias e as perguntas para as quais não encontrei respostas. E os dias e os sonhos, muitos deles, ficaram por sonhar.
As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar
Queria viver tudo numa noite
Sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p´ra poder sonhar
Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p´ra se amar
Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
Quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal
Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais
Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais
Julho está a acabar e ainda bem! Foi um mês de longas canseiras e de mortes injustas, prematuras, inesperadas.
A música tem ajudado a mitigar a dor destas horas em que escrevo as lágrimas que o coração não segura.
Agosto trará o sabor a férias. Precisamos de amainar os vendavais.
















