ARTIGO DE OPINIÃO: Já lá vai o Entrudo!

01/03/2023 18:30

O Carnaval beirão era uma festa muito bem organizada. Desfilavam os músicos, seguidos pelas raparigas com trajes de rancho, com os lenços garridos, cingidos à volta do peito ou apertados nas cabeças, as caras pintalgadas de rouge, feito com colorau. Cantavam modinhas da Beira.  Ainda nenhuma delas sambava.

Os rapazes e os homens vestiam-se com roupas de mulher. Calçavam meias de vidro, através das quais luziam os pelos das suas pernas musculadas. Simulavam mamas grandes com farrapos no peito a encher os coletes apertados. Algumas mulheres, as mais ousadas, ajeitavam-se com camisas e casacos de homem, com cinto ou suspensórios para segurarem as calças. Punham gravatas e chapéus e desenhavam bigodes com um carvão retirado da lareira. Nessa altura, ainda não era moda as mulheres usarem calças no dia a dia. Era a única época do ano em que o podiam fazer. Trocar de roupas e de vidas! 

 Nas ruas, os mais novos jogavam as púcaras e as botijas de barro, que já não serviam para aquecer os pés na cama, atirando-as, de costas uns para os outros, em fila, à espera que resvalassem das mãos distraídas, até caírem no chão e se despedaçassem, com grande alarido de todos. Deitavam estalinhos, serpentinas e bombinhas de mau cheiro. 

Na noite de terça-feira, antes de ser meia-noite, a hora de entrada na Quaresma, um tempo de sacrifício e de reflexão, fazia-se o enterro do Entrudo. Os rapazes levavam o defunto, um boneco feito de palha, vestido com roupas de homem velho, sobre uma padiola. Atrás, homens, mulheres e crianças fingiam choro aflito e todos se riam descaradamente, arrastando latas e penicos de esmalte pelas calçadas. No final do cortejo, queimavam-no e enterravam os restos mortais numa cova, com uma cruz por cima.

Antes do enterro, “deitavam-se” os compadres e as comadres, entre os solteiros e os viúvos de ambos os géneros, os compadres tinham de dar as amêndoas pela Páscoa. Os rapazes e as raparigas mais novos trocavam rezas. “Queres enganchar comigo? Enganchar, enganchar para no dia de Páscoa te mandar rezar. Reza!” Diziam esta melopeia, enquanto entrelaçavam os dedos mindinhos das mãos direitas, e era um juramento. Debaixo de telha não valia, por isso traziam um pedacinho de barro, na algibeira, que colocavam sobre a cabeça mal se viam ao longe. Ganhava o primeiro que mandasse rezar no dia de Páscoa, apanhando o outro desprevenido. E ganhava-lhe as amêndoas, ainda todas cobertas de açúcar branquinho, embrulhadas em saquinhos de papel, compradas a peso nas mercearias.

Ganhar um pacote de amêndoas não tinha o mesmo sabor que tem hoje que as podemos encontrar todo o ano, em qualquer superfície comercial, de todas as cores e feitios. Naquele tempo, ainda não havia coelhinhos da Páscoa. Os coelhos andavam espalhados nas casotas, feitas com rede, ou cavavam buracos nas lojas de terra batida, que ficavam sob as casas. Matavam-nos com uma paulada na cabeça e era um arroz de cabidela, à maneira. 

Há animais com sorte. Mudam de estatuto. Hoje, na era da globalização, os coelhinhos são de chocolate e as crianças andam com cestinhos à sua procura nos jardins das suas casas modernas, aqui e em qualquer lugar.

A tradição já não é o que era!

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