ARTIGO DE OPINIÃO: (i)Literacia em Saúde: Suicídio e Bem-Estar

19/03/2022 18:30

Vivemos num momento em que a desmistificação e a quebra do tabu sobre a saúde mental ganhou espaço na vida das pessoas e da sociedade. Para além da desconstrução do estigma social e da promoção da saúde e bem-estar, o aumento da literacia sobre saúde mental pode ajudar a prevenir um problema de ordem mundial: o suicídio. 

O suicídio é a 14ª causa de mortalidade no mundo, com uma taxa de 12 vítimas por 100.000 indivíduos. A Organização Mundial da Saúde estima que em 2019, 6.9 e 11.5 pessoas por cada 100.000 habitantes cometeram suicídio, respetivamente, no Brasil e em Portugal (1)

Estas taxas estão, provavelmente, subestimadas, pois os suicídios podem ser classificados erradamente como acidentes devido à incerteza sobre a intenção do falecido, sendo, em alguns países, inclusive ilegal (2). A mortalidade por suicídio é maior em homens do que em mulheres, embora as taxas de tentativa sejam maiores entre elas. Não obstante, apesar das tentativas de suicídio serem mais comuns em jovens (18 a 25 anos), a faixa etária que mais consuma o suicídio é a dos idosos (mais de 70 anos).

Já as tentativas de suicídio não efetivadas são mais comuns ainda, com uma prevalência de 3% ao longo da vida, aumentando para 9% se considerarmos também ideação suicida (pensar em suicídio, sem chegar à tentativa) (3).

Assim, urge quebrar o tabu em volta do suicídio como forma de identificar pessoas em risco e prevenir que esse risco se concretize num ato irreversível. 

Quem está em risco?

É difícil identificar, previamente, quem são as pessoas em risco de suicídio através de rastreio da população geral. Mais ainda, não é fácil quantificar quantas pessoas com pensamentos suicidas tentarão suicidar-se. Isto torna muito difícil ajudar na prevenção do ato em si. 

Contudo, sabemos quem são as populações mais vulneráveis.
O maior fator de risco isolado para alguém cometer suicídio é já ter tentado sem sucesso. Ou seja, pessoas que já tentaram suicídio pelo menos uma vez têm maior probabilidade de uma nova tentativa ser bem-sucedida. Outros fatores de risco incluem a presença de transtornos mentais, sentimentos de desesperança, populações vítimas de preconceito, moradores de regiões rurais, pessoas com doenças incapacitantes e/ou terminais, dor crónica ou insónia. Alta impulsividade e abuso de substâncias aumentam o risco de que os impulsos suicidas aconteçam (4).

Também é importante realçar fatores ambientais e genéticos que interferem no risco, como a história pessoal de abusos sexuais na infância e história de suicídio na família. O acesso a meios para cometer suicídio também deve ser considerado como factor que aumenta o risco (por exemplo, medicamentos e armas de fogo).

Quem está protegido?

Não há uma forma de proteção total contra o risco de suicídio. Entretanto, existem alguns fatores já evidenciados como protetores para a população. Sabe-se que o apoio social e um contexto familiar saudável protegem contra o suicídio. O casamento, a gravidez e ter filhos diminuem o risco de suicídio através da responsabilização do indivíduo por outras pessoas. A espiritualidade pode também desempenhar um papel preventivo pela ideia de pertença e esperança, que está perdida na maioria dos casos (5). A saúde mental desempenha um papel fundamental e a literacia sobre saúde mental pode ser preponderante para melhorar o bem-estar individual e coletivo, ajudando a prevenir situações indesejáveis (6)

Como podemos identificar alguém em risco? 

A maioria das pessoas que tenta suicidar-se fá-lo com a ideia de que a morte é uma solução (7). Portanto, pessoas que estejam em situações de vulnerabilidade pela vivência de um trauma importante ou a descoberta de uma doença incapacitante podem apresentar dificuldade para continuar a viver. Isso também é válido para as pessoas que vivenciam uma doença de saúde mental que prejudica a percepção de esperança numa possível melhora e acabam por se isolar. Então, se conhece alguém que está a afastar-se das pessoas, que fala sobre falta de esperança em relação à vida ou que viveu momentos difíceis recentemente, pode ser válido falar sobre o assunto para identificar se há um risco presente de suicídio.

O que posso fazer se estiver ou conhecer alguém em risco?

Se suspeitar que alguém próximo está em risco de suicídio, pergunte à pessoa e ofereça suporte. Ao contrário do que reza a lenda popular, falar sobre suicídio com alguém que está em risco não estimula a pessoa a concretizar o ato e pode ajudar a desconstruir a crença de que ela está sozinha e/ou abandonada. Para ajudar-se a si ou outra pessoa com ideação suícida pode entrar em contacto com a linha SNS24, 112 ou o serviço de Saúde Mental do hospital regional. A Direção-Geral da Saúde disponibiliza ainda uma Linha de Aconselhamento Psicológico e Linhas de Crise (8)

Não tenhamos receio em ajudar e ser ajudados, em quebrar os tabus e as barreiras que dificultam a partilha e o empoderamento da população. 

Todos podemos ajudar e todos podemos ser ajudados na promoção do bem-estar e prevenção do suicídio!

(4) The suicidal patient | Manual of Psychiatric Emergencies, 3rd ed, Hyman SE, Tesar GE (Eds), Little, Brown, 1994.

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