

Muitos saberão, alguns acompanham há décadas o meu deslumbramento pela Banda Desenhada, as histórias em quadradinhos que nos multiplicam as emoções, aquelas que são sobretudo a arte em narrativas de ação.
Recentemente voltei a deslumbrar-me com esta nova história de arte aos quadradinhos de que vos falo…
E se subitamente descobrissem que o vosso vizinho, a pessoa que vocês menos imaginam, tivesse um incrível segredo? Da aclamada e premiada dupla criativa de Mark Millar (Guerra Civil) e Rafael Albuquerque ( Batgirl), esta é uma das histórias mais genuínas e surpreendentes desta década que passou, seguramente, e que acabei de ler e admirar.
Resumindo a história, numa pequena e pacata vila da costa americana, Huck, o funcionário da bomba de gasolina, usa em segredo os seus talentos muito especiais para fazer uma boa ação por dia. Mas quando a história dele se começa a espalhar, ele transforma-se em notícia principal pelo país todo, e recebe a fama que sempre evitou. E, à medida que começam a emergir elementos do passado de Huck, ele deixa de perceber em quem pode confiar ou não, e que há vidas em perigo.
Millar explicou as razões pelas quais escreveu Huck num artigo que se intitulava “Como Homem de Aço [o filme] me traumatizou de tal maneira que decidi escrever Huck”, como uma espécie de reacção a um excesso de violência e de “lado negro” dos comics e dos filmes neles baseados. Millar, ele próprio, escreveu a sua quota parte de histórias ultra-violentas, basta lembrar Kick-Ass. Mas por uma vez, decidiu fazer algo diferente.
Mark Millar é o escritor de séries de comics aclamadas como Kick-Ass, Kingsman: Serviço Secreto, O Legado de Júpiter e O Círculo de Júpiter, Nemesis, etc…. Muitos destes livros já foram adaptados ao grande ecrã, e muitos outros estão em adaptação para o cinema, e depois da recente aquisição da Millarworld pela Netflix, para a televisão, incluindo livros que escreveu para a Marvel no passado, como Wolverine: Old Man Logan (Velho Logan) e Civil War (Guerra Civil) – a série de super-heróis mais vendida em quase duas décadas.
Rafael Albuquerque venceu já vários prémios Eisner e Harvey, e é o co-criador da série best-seller do New York Times American Vampire (DC Comics/Vertigo), escrita por Scott Snyder e Stephen King, e de Ei8ht, da Dark Horse. Rafael já trabalha na indústria de comics desde o início dos anos 2000, e tem trabalhos assinados para a maioria das editoras americanas, tendo ilustrado séries populares como Batman, Wolverine, Animal Man, e mais recentemente Batgirl. Fez parte do relançamento da Millarworld na NETFLIX, tendo ilustrado um arco de história para a nova série de Hit-Girl, e a mini-série Prodigy.
No nosso quotidiano encontramos pessoas boas (algumas mesmo boas, estupidamente boas, diríamos), outras pessoas com mau íntimo (movidas, neste caso, pela inteligência, mas desprovidas de moral) e pessoas comuns – as pessoas que não pensam e cometem erros, as pessoas que se deixam envolver pelo mal e que servem de contraste para fazer brilhar o herói, sempre reto nas suas interações. O nosso “herói”Huck possui um pensamento puro, do imediato, pouco premeditado, que apenas aponta para fazer o bem não olhando a quem. Huck procura estar em harmonia com a natureza, procura a simplicidade naqueles que o rodeiam, mas também os que estão de bem com o mundo que os rodeia. E aqui podem surgir os problemas, a realidade e o oportunismo. Neste aspeto distancia-se de exemplos de outros super heróis, que vivem num cenário de perturbação violenta ou obsessiva.
Huck é uma obra de leitura agradável, dentro de um certo género de narrativa otimista, que nos apresenta um personagem volumoso, algo deslocado da normalidade da vida agitada e cruel de hoje, mas com o qual é fácil simpatizar porque é bom de coração, simples de modos e de pensamentos, útil e reservado. Mas ao seu redor, como no nosso quotidiano, nem todos são de confiança.
Em termos artísticos, o grafismo e os cenários possuem ritmo e uma energia cromática muito interessante, as figuras são bastante expressivas, emocionalmente envolventes e contagiantes, e assim posso concluir que estamos perante uma obra de arte possante, à qual não se fica indiferente, e que nos implica face ao presente e ao futuro das nossas sociedades. A não perder (uma edição G. Floy Studio em Portugal).
















