Quando nasceu foi registado com o nome José Fontinhas. A mãe trouxe-o ao mundo no dia 19 de janeiro de 1923, numa aldeia chamada Póvoa da Atalaia, concelho de Fundão, distrito de Castelo Branco. A mãe será a sua eterna devoção. O Porto foi a sua última morada.
Comemoramos este ano o centenário do seu nascimento. Trazemos um poema, a melhor forma de o eternizarmos, enquanto o lermos e o dermos a ler.
Eugénio de Andrade é o seu pseudónimo literário. É o nome que o distingue do funcionário público que sempre foi. Consideramo-lo um poeta fabbro, partindo do termo italiano, cujo significado se coaduna perfeitamente com a sua arte poética: o poeta como ferreiro, serralheiro, criador, artífice da palavra. Vejamo-lo.
A sílaba
Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.
Eugénio de Andrade, Ofício de Paciência, 1994.
Se para alguns, o poeta era o profeta, o adivinho, aquele que vaticinava o futuro como intérprete direto da palavra divina, outros encontram a etimologia do termo no verbo grego poien, sinónimo de fazer, criar, um obreiro da palavra. Um trabalho que exige tempo, memória, dedicação, esforço. Nada é dado de graça.
A poesia, de acordo com esta conceção, é um verdadeiro exercício, uma arte da língua, fruto do labor, do ofício exercido através do saber, da inteligência e da experiência. A inspiração não chega para fazer um grande poeta, concordamos com Paul Claudel.
O poeta é como o carpinteiro que trabalha as tábuas, um ferreiro que serra o ferro, o bate com o malho, depois de o aquecer na forja, e o molda até atingir a forma. Um trabalho feito por etapas. Com habilidade e mestria. Com poder técnico e sentido estético apurado. Com vagar. Com demora. Com suor e lágrimas, muitas vezes. Escrever poesia é uma reminiscência dos ofícios antigos, como o de amassar o pão ou o de aplainar a madeira que será cadeira ou será mesa.
Escrever é a arte de cortar, aquecer, bater, dar forma à palavra certa, numa gestação lenta, sofrida, com dor. O poeta lida corpo a corpo com a palavra que, numa luta desigual, muitas vezes lhe escapa, lhe foge, exigindo esforço, persistência, uma luta, muitas vezes, infrutífera com a página branca, feita de tentativas e recomeços.
Toda a manhã, o poeta procurou a sílaba, uma pequena palavra, a vogal e a consoante ditas de uma só vez. Parece fácil, mas não é. Por isso, a procurou teimosamente, não desistiu porque precisava dela como quem precisa do ar que respira ou do pão que come, ou da água que bebe, ou do agasalho para poder viver, para poder suportar os desafios da vida, aqui metaforizados pelas estações do ano, o frio e o calor. O desequilíbrio. A procura da serenidade, do apaziguamento, da libertação de um ai. De um sim. De um não. Não pode ser qualquer junção de letras ou de sons. Tem de ser a sílaba única, excecional, inteira e uma única sílaba. Só uma, expelida de uma só vez, depois da sua fermentação.
Ar. Mãe. Paz. Fim. Chão…
















