ARTIGO DE OPINIÃO: Entre Camões, Zeca Afonso, Sérgio Godinho e Cristina Branco

24/09/2025 18:30

Endechas a Bárbara escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E, pois nela vivo,
É força que viva.

Volto a Camões! Estive na Feira do livro do Porto. Sérgio Godinho foi o autor homenageado deste evento anual. Ao passear pela Avenida das Tílias, onde ecoava a sua música, detive-me na sua interpretação deste poema camoniano. E foi assim que encontrei o mote para o meu texto deste mês, no qual procuro mostrar a força intemporal da obra camoniana e a sua abertura a outras criações artísticas. Neste caso, refiro-me à música. 

Camões soube, como nenhum outro dos nossos poetas, mostrar a mundividência cultural do século XVI. Se por um lado afirma o seu gosto pelo «estilo novo», importado da Itália renascentista, ao assumir a medida nova nos seus múltiplos sonetos, por outro lado, encontramo-lo a glosar temas e formas do nosso velho cancioneiro, em versos de redondilha maior ou menor. 

O nosso Poeta mesmo quando se apropria de modelos existentes, não deixa de nos surpreender com a sua originalidade e génio. Vejamo-lo a propósito destas «endechas», uma composição de tom melancólico. Logo no primeiro verso «Esta cativa que me tem cativo», o sujeito poético joga com a polissemia do verbo cativar e do nome cativo, vulgarmente com o sentido de escravo, para falar de dois mundos da escravidão, a da época dos nossos descobrimentos e da nossa ligação ao mercado negreiro, a da condição social desta mulher, e a do amor que, de modo poético, nos escraviza porque nos domina, sem apelo nem agravo.  

Neste poema, fugindo aos estereótipos do retrato de beleza feminina da época, que tão bem soube imitar, da mulher dita petrarquista, por influência da obra de Petrarca, Camões não nos traz uma mulher de pele branca, de cabelos longos e louros, de olhos azuis, uma mulher cujo aspeto físico é um «manifesto indício d’alma», isto é, mais deusa do que mulher. Esta é uma mulher negra, a quem a própria neve inveja a cor, numa personificação que só na arte literária pode acontecer. Os seus cabelos e olhos são negros e inimitáveis. Verdade, porém, ela tem uma serenidade que a aproxima das deusas.

Esta mulher que até parece estranha, porque diferente das outras, não é uma bárbara, no sentido usual de pertencente a um povo rude, violento. Aqui, ela é dotada da virtude rara de acalmar as tempestades, as fúrias e as amarguras do sujeito que nos confessa que ela é a inspiração da sua criação poética, jogando, de novo magistralmente, com a plurissignificação da palavra «pena», que pode significar quer a sua inquietação interior, por não ser correspondido amorosamente, quer designar o objeto de escrita usado na época, ou até à sua compaixão por esta mulher. Nos últimos versos, o «eu» lírico admite que embora «escravo», numa inversão de papéis, continuará a viver, porque a ama. Por amor se move a vida, ao alimentar esta chama contraditória que nos magoa, mas, ao mesmo tempo e paradoxalmente, nos ilumina. 

É deste conjunto de versos escritos há quinhentos anos que outros artistas da nossa portugalidade partem para a produção musical. Esta composição poética foi musicada e interpretada porum grande compositor do seculo XX, José Afonso. Outros se apropriaram desta sua recriação para perpetuarem uma das vozes maiores da nossa língua. Sérgio Godinho pegou nesta nossa herança, gravando esta composição e levando-a a inúmeras salas de espetáculos, passados cinco séculos. Recentemente, também a cantora Cristina Branco, num jeito de homenagear a obra de Zeca Afonso, pegou e deu voz a este legado. 

Assim, se vai perpetuando a riqueza ímpar do nosso Poeta.

Ana Albuquerque

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