E se a procura constante pela felicidade nos estiver a fazer infelizes?
Vivemos numa sociedade que parece ter transformado a felicidade numa obrigação. Temos de estar bem, pensar positivo, ultrapassar rapidamente os problemas e encontrar sempre o lado bom das coisas. Mas será possível estar sempre bem? E será que a procura constante pela felicidade não estará, paradoxalmente, a contribuir para que sejamos mais infelizes?
Nas redes sociais, esta realidade é ainda mais evidente. Vemos pessoas felizes, viagens, famílias perfeitas, relações perfeitas e carreiras de sucesso. Raramente vemos a tristeza, a dúvida, a frustração ou aqueles dias em que simplesmente não estamos bem.
Na minha prática clínica em Viseu e Tondela, ouço frequentemente algo como “Eu tenho tudo para estar bem. Eu não deveria sentir-me assim.” Pessoas que não sofrem apenas pelo que lhes está a acontecer mas também porque acreditam que não deveriam estar a sofrer. E isso revela uma dificuldade crescente em aceitar que não estar bem também faz parte da vida.
A Psicologia tem demonstrado a importância desta aceitação. Num estudo publicado recentemente verificou-se que uma maior aceitação dos pensamentos e emoções estava associada a maior bem-estar e satisfação com a vida e a menos sintomas de ansiedade e depressão. Isto não significa que devemos gostar de sofrer ou acreditar que todo o sofrimento tem um propósito. Há sofrimento que é profundamente doloroso e que necessita de ajuda profissional. Não devemos romantizar a dor. Mas existe uma diferença importante entre eliminar o sofrimento e compreendê-lo.
Recordo-me de um paciente que acompanhei em consulta e que acreditava que o seu principal problema era a ansiedade. Queria simplesmente deixar de a sentir. À medida que fomos trabalhando, percebeu que aquela ansiedade estava relacionada com anos de pressão, necessidade de corresponder às expectativas dos outros e dificuldade em reconhecer os seus próprios limites. A ansiedade incomodava-o, mas também lhe estava a comunicar alguma coisa. Quando deixou de perguntar apenas “Como faço para deixar de sentir isto?” e começou a perguntar “O que é que isto me está a querer dizer?”, iniciou-se um processo de mudança.
Por vezes, a tristeza mostra-nos que perdemos algo importante. A ansiedade pode revelar que estamos há demasiado tempo em alerta. A raiva pode indicar que um limite foi ultrapassado. O esgotamento pode mostrar-nos que a forma como estamos a viver deixou de ser sustentável. Quando conseguimos compreender aquilo que sentimos, o sofrimento pode deixar de ser apenas uma dor que queremos eliminar e transformar-se num dínamo para a mudança. Não porque sofrer seja bom, mas porque podemos escolher o que fazer com aquilo que nos acontece.
Talvez esta seja uma das aprendizagens mais importantes que a Psicologia nos pode oferecer: saúde mental não é estar bem todos os dias. É conseguir reconhecer que não estamos bem sem sentir que falhámos. É compreender aquilo que sentimos e procurar ajuda quando já não conseguimos fazê-lo sozinhos.
Em Viseu, como no resto do país, precisamos também de falar mais sobre isto. Porque por detrás de muitas pessoas que aparentemente “estão bem” podem existir ansiedade, solidão, luto, conflitos ou simplesmente o cansaço de tentar corresponder permanentemente à imagem de quem achamos que deveríamos ser. Talvez não precisemos de procurar uma vida sem sofrimento. Talvez precisemos de aprender a escutar aquilo que o sofrimento nos quer dizer. Porque, quando é reconhecido e trabalhado, o sofrimento pode deixar de ser aquilo que nos paralisa e tornar-se aquilo que nos impulsiona a mudar.
E talvez a verdadeira felicidade não esteja em estarmos bem todos os dias, mas em sabermos que, mesmo nos dias em que não estamos, podemos compreender, transformar e seguir em frente.
E você, está a aprender a aceitar que não tem de estar sempre bem?
David Almeida
Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu
965800042















