ARTIGO DE OPINIÃO: Dois mundos e quatro estações

18/05/2022 19:30

Em Esteiros existem dois mundos opostos: o dos ricos e o dos pobres, separados por fronteiras como, por exemplo, a escolarização. Face à pobreza, a escola representa a possibilidade de acesso a uma vida melhor. 

Quando Gaitinhas percebe que a mãe não pode pagar o seu regresso à escola – o que frustra as suas expectativas de ser doutor – percebe também que o seu futuro desapareceu: «Seguiu para casa, isolado, a meditar no mundo dos rapazes descalços e analfabetos como o Maquineta, ao qual em breve iria pertencer.» É nesta medida, a da valorização da escola como hipótese de uma vida melhor e como lugar da infância, que ganha especial importância a última frase da obra: «E, quando o encontrar, virá então dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais – moços que parecem homens e nunca foram meninos.»  

Estes meninos, que correm atrás das bilhardas ou dão piparotes nos berlindes, perdem, pelas circunstâncias da vida, o direito à infância. Deste mundo difícil, só é possível fugir através do sonho. Sonho que pode ganhar a forma de um fato novo, prometido a Gineto pelo pai, ou sonho que pode ter formas de mulher, como as de Rosete. Mas o sonho está sobretudo nas palavras, no poder criador do «Era uma vez»: «– Sagui, conta uma história.»; «Então, os moços ficavam encantados em príncipes, e viviam as histórias que o Sagui contava melhor que um letrado: – Era uma vez um prínce…»  

Esta alternância entre realidade e sonho é tão transversal quanto cíclica; o facto de Esteiros compreender quatro capítulos (Outono, Inverno, Primavera e Verão) reflete a brevidade da vida humana em oposição ao Tempo sempre renovável da natureza. Lembremos o caso de Madalena, mãe de Gaitinhas, profundamente doente com – adivinhamos – uma tuberculose. A esperança na recuperação projeta-se na Primavera, como tempo de renovação: «De olhos enleados no retrato, a doente lembrou-se da árvore que Pedro plantara no quintal antigo. Cada Inverno mais nua, mais franzina, e sempre à espera que a Primavera lhe trouxesse novas seivas e flores. Assim ela também.»  

A narrativa inicia-se com a Feira, em setembro; o desfecho retoma tal referência, o que comprova o seu caráter circular: as vivências tocam as recordações, o final repete o início. Deste modo, ao longo das quatro estações, os medos e os sonhos são os mesmos, as luzes e as sombras são as mesmas, as tristezas do Inverno são as canseiras do Verão, as laranjas da Primavera são as uvas do Outono.  

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