ARTIGO DE OPINIÃO: Deixai vir a mim as criancinhas 

21/12/2022 18:30

O Suave Milagre (1891), 3.ª versão de um conto de Eça de Queirós, já na fase da superação realista pela emergência da imaginação, traz-nos a história de um homem tão orgulhoso quanto rico, de nome Omed, que mandou procurar Jesus por acreditar, tendo ouvido falar dos prodígios de que era capaz, que o rabi libertaria, a troco de bom e irrecusável dinheiro, as suas terras das terríveis pragas que as assolavam; traz-nos também a história de um homem muito poderoso, Públio Sétimo de seu nome, que igualmente mandou procurar Jesus por ter esperança, tendo ouvido contar «que sarava os males tenebrosos da alma», de que devolveria a saúde à sua única e amada filha; e traz-nos, por fim, a história de uma mulher muito pobre a quem o filho aleijado pedia encarecidamente que fosse procurar o rabi que «amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos» para o curar, mas que não tinha como aceder ao seu pedido, por não poder deixá-lo sozinho e por pensar que, ainda que encontrasse o doce galileu, nunca ele acederia a acompanhá-la, tão humilde era.  

Ora, ao contrário do que aconteceu com o rico Omed, que mandou os seus servos procurar o rabi, sem que o encontrassem, e com o poderoso centurião romano Públio Sétimo, que mandou os seus soldados o rabi buscar, sem que sequer o avistassem, regressando uns e outros com as sandálias rotas por terem em vão palmilhado toda a Galileia, viu a pobre e desamparada viúva aparecer-lhe Jesus no casebre, respondendo esta visita ao desejo do choroso filho: «De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:  – Mãe, eu queria ver Jesus… E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:  – Aqui estou.» 

Se Jesus não aparece aos que o procuram por meio da sua riqueza e que, com essa riqueza, querem facilmente encontrá-lo, aparece aos que o procuram no meio da sua pobreza e que, com essa pobreza, são amorosamente encontrados. A criança chama por Jesus, e Jesus, «a Eterna Criança» (não será por acaso que, no conto São Cristóvão, também de Eça, seja o Menino Jesus «pequenino como quando nasceu no curral» a aparecer ao protagonista para o acompanhar na hora da morte e o levar para o Céu) vem até ela, apiedado do seu enternecedor pedido; são as crianças a maior riqueza da vida e nelas está o seu verdadeiro e divino sentido.   

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