Encontrado um velho cofre de ferro cheio de dobrões de ouro, a miséria dos três irmãos de Medranhos parecia ter chegado ao fim. Havia uma chave para cada um e cada um a guardou. Então, já com ouro na bolsilha, desanuviado e cantando, pudera, Guanes foi à vila de Retortilho comprar «três alforges de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho». Então, Rui, que era gordo e o mais avisado – ai, esperem lá que me está a faltar aqui uma característica, mas pode ser que, entretanto, me lembre – conseguiu convencer Rostabal, o irmão mais velho, a matar Guanes assim que este regressasse com os mantimentos. Mais ouro sobraria. E assim foi. Ora tendo morrido já um, só faltava matar o outro. Mais ouro sobraria. E assim foi.
Ficou Rui sozinho, dono absoluto de um tesouro que faria renascer o solar agora em ruínas. Preparou-se para se deleitar com o «gordo capão assado» que Guanes trouxera e nem o facto de o irmão só ter trazido duas garrafas de vinho lhe perturbou o espírito ou tirou a fome. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, e ele muito menos, de avisado não teve nada. É que aquele vinho, com «aquela cor velha e quente», aquele vinho que «tão prontamente aquecia o sangue», o tinha envenenado Guanes, bem tinha ele partido desanuviado e cantando, pudera, e era agora «um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas.» E, por falar em fogo, lembrei-me agora da outra característica que atribuiu a Rui o narrador de O tesouro: era ruivo. Ele há coisas.
Bom, «O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.» Mais ouro sobraria. E assim foi.
















