Há uma criança que habita cada artista. Não tem idade, não conhece calendários e, felizmente, não aprendeu ainda a ter vergonha de se espantar. É essa criança que se detém diante de uma luz diferente, que descobre mundos numa sombra projectada na parede, que acredita que uma caixa de cartão pode ser um navio e que o impossível é apenas uma possibilidade que ainda não Encontrámos. É ela que pergunta porquê quando os adultos já desistiram de perguntar e que insiste em sonhar quando a realidade parece ter esgotado os argumentos contra o sonho. Talvez seja essa a primeira condição de um artista: nunca ter permitido que a infância partisse inteiramente. Com o tempo, aprendemos muitas coisas. Aprendemos técnicas, adquirimos conhecimentos, aperfeiçoamos gestos, dominamos linguagens. Aprendemos a reconhecer os limites, a calcular riscos e a desconfiar das ilusões. A experiência torna-nos mais capazes, mas também pode tornar-nos mais cautelosos. E há uma fronteira perigosa entre a maturidade e a resignação, entre conhecer o mundo e deixar de nos maravilharmos com ele. É nessa fronteira que muitos artistas começam, sem se aperceberem, a perder a sua razão de existir. A arte não nasce apenas do conhecimento. Nasce também da inquietação, da curiosidade, da capacidade de olhar para aquilo que todos veem e descobrir o que ninguém parece ter reparado. Exige disciplina, rigor, trabalho e, por vezes, uma exigência quase cruel connosco próprios. Mas exige igualmente uma disponibilidade para o espanto que nenhuma escola ensina e nenhum diploma certifica. A criança interior não substitui o artista que amadurecemos. Salva-o, muitas vezes, de se tornar apenas um profissional competente, tecnicamente irrepreensível e emocionalmente adormecido. Porque há uma diferença enorme entre saber fazer e continuar a sentir necessidade de fazer. Entre repetir o que já dominamos e aventurarmo-nos no território incerto daquilo que ainda não sabemos. Entre procurar o aplauso e sentir, profundamente, que temos alguma coisa para dizer ao mundo. A criança que vive no peito do artista não é
sinónimo de ingenuidade. Não é uma desculpa para a irresponsabilidade, nem um convite a permanecer eternamente imaturo. Pelo contrário: é a parte de nós que conserva a coragem de começar de novo, mesmo depois dos fracassos; que nos permite reconhecer a beleza sem precisar de a justificar intelectualmente; que nos impede de confundir prestígio com importância e reconhecimento com verdade. É ela que nos recorda que a criação não deve ser um exercício de superioridade, mas um acto de generosidade. Que a arte não existe para provar que somos mais inteligentes do que os outros, mas para nos aproximar daquilo que, sendo profundamente nosso, pode também pertencer a todos. Talvez por isso me comovam tanto os artistas que ainda conseguem surpreender-se. Aqueles que, apesar dos anos, das desilusões, das portas que se fecharam e dos sonhos que tiveram de ser adiados, conservam nos olhos qualquer coisa de inaugural. Uma espécie de luz antiga, como se o mundo lhes estivesse a acontecer pela primeira vez. Há uma beleza particular em envelhecer sem perder a capacidade de nos espantarmos. Em acumular cicatrizes sem deixar que elas endureçam o coração. Em conhecer suficientemente a vida para perceber a sua dureza e, ainda assim, continuar a acreditar na possibilidade de a tornar mais bela.
Tenho para mim que o verdadeiro perigo não é envelhecer. É deixar de nos comover. Não é perdermos a juventude do corpo, mas aceitarmos que o nosso olhar se torne velho, cansado, incapaz de descobrir novidade no que nos rodeia. A criança interior é, afinal, a nossa reserva de humanidade. É dela que vem a emoção que nos atravessa quando uma música nos toca inesperadamente, quando uma personagem ganha vida no palco, quando uma palavra encontra o lugar exacto no coração de alguém. É ela que nos faz continuar, mesmo quando seria mais cómodo desistir. E é também ela que nos ensina a humildade de compreender que criar não é possuir a verdade, mas permanecer disponível para a procurar. Talvez o privilégio maior de um artista seja esse: poder envelhecer sem ter de abandonar a criança que foi. Continuar a olhar as estrelas sem sentir necessidade de explicar o universo.
Continuar a inventar mundos, mesmo conhecendo as imperfeições deste. Continuar a acreditar que uma história, uma canção, um gesto ou um instante de beleza podem mudar, ainda que por breves momentos, a maneira como alguém respira, sente ou compreende a vida. No fundo, criar é uma forma de resistir à morte das coisas dentro de nós. E, se me perguntarem o que ainda procuro na arte, talvez não saiba responder com grandes teorias ou definições elaboradas. Sei apenas que continuo à procura daquele instante em que o mundo me surpreende, em que alguma coisa me comove antes de eu conseguir explicá-la, em que volto a sentir a vertigem de quem descobre algo pela primeira vez. Aos olhos dos outros, posso ter sessenta e seis anos. Mas há em mim uma criança que continua a acordar todas as manhãs, curiosa, inquieta, apaixonada pela vida e espantada com o milagre de estar aqui. É por ela que continuo a criar. Porque, enquanto essa criança viver no meu peito, o mundo nunca estará completamente descoberto, a beleza nunca estará definitivamente perdida e o sonho nunca será apenas uma recordação daquilo que fomos.
“Não dou ouvidos a ninguém… excepto à minha criança interior.” – Amy Winehouse
António Leal
Encenador/Diretor Artístico/Músico
















