Meu caro Luís!
Por incrível que possa parecer, resolvi escrever-te uma carta neste tempo de comemorações dos teus quinhentos anos. É obra!
Não sei como tens conseguido resistir à velhice e às doenças a ela associadas. Dizem que já não tens o fulgor da juventude, do tempo em que escrevias versos às donzelas e até às damas da corte, a quem, pelos vistos, ias cortejando, mais ou menos, descaradamente. O amor, meu caro, sempre foi a tua perdição. Outros erros e a má sina te bastavam. Contudo, o veneno da formosura das mulheres deu cabo de ti. Há até quem diga que te atreveste a fazer versos a princesas, esquecendo-te do teu estatuto de soldado pobre de vistas, depois do fatídico acidente em que perdeste um dos olhos.
Perdeste o olho, mas não a veia. A veia e o verbo.
Por cá, na escola, continuamos a estudar o teu nobre Poema de exaltação patriótica. Continuamos a contar os versos das oitavas, as sílabas dos decassílabos, pelos dedos, e a observar os esquemas das rimas. Não o fazemos por menos! Os alunos adoram estes preciosismos formais. (Rio-me).
Quanto ao resto, dizem que o teu texto é muito complicado, que utilizas palavras caras, algumas nem vêm no Priberam. (O Priberam é um dicionário em linha). E depois, aqui para nós, exageraste com tantas informações históricas e mitológicas. Os professores veem-se a braços com tantas explicações para pobres estudantes habituados aos diapositivos das editoras, que memorizam ou copiam para os telemóveis. Escrever no quadro já não está na moda. Não te admires!
Nos anos em que algum doutor se lembra de te pôr nos exames nacionais de Português, as almas ficam aflitas e nem com notas de rodapé, em abundância, conseguem decifrar o que o narrador (um tal de Vasco da Gama) quer dizer sobre o reinado de D. Duarte ao Rei de Melinde. Pior ainda se se lembra de pedir uma relação entre o pendor épico de Os Lusíadas e o caráter lírico de Mensagem, um livrinho daquele poeta que teve a ousadia de nunca se referir a ti nos seus versos. Vá lá saber-se porquê! (Eu até desconfio).
Luís, como sabes, tu sempre foste o meu poeta de eleição e se te digo estas coisas é porque fico triste com as lamentações dos alunos e dos pais. Que tu estás fora de moda. Que o mundo mudou. Que já lá vai o tempo da outra escola. Que, enfim…
As tuas lamentações essas fizeram brado no dia 10 de junho. Uma escritora portuguesa presidiu às comemorações do Dia da (antiga) Raça, agora Dia de Portugal e de todos os portugueses. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades! E há quem não goste destas modernices de uma mulher escritora se lembrar de dizer que no grande Poema dedicado a D. Sebastião, tu mostras um lado negro da nossa personalidade: esta tendência que temos para menosprezar as artes e dar mais valor ao vil dinheiro, esta tendência para nos considerarmos mais puros, mais humanos do que os outros humanos, esta tendência para a inveja, para a cobiça, para a tristeza… Há quem diga até que tu só de queixaste do país porque estavas à espera de um cargo no Ministério da Cultura, que já não há.
Luís, quando eu era pequena (ainda não cresci assim tanto) tive a felicidade de ter um professor de Português que nos lia os teus versos em voz alta nas aulas. Lia-os com tanta emoção que me contagiou. Agora que sou eu a professora de Português, tento fazer o mesmo com os meus alunos. Nem sempre consigo, mas não desisto.
Graças a ti, na semana passada, fui a Coimbra à Biblioteca Geral da Universidade. Sabes que o palácio que agora ocupa foi a primeira Faculdade de Letras?
Enquanto deambulava pela sala de S. Pedro e acompanhava a explicação da curadora da exposição alusiva à tua vida e obra, dei por mim a imaginar-te estudante em Coimbra. Os teus poemas dedicados ao Mondego e os teus versos sobre a fonte das lágrimas de Inês e de Pedro trouxeram-me a nostalgia da vida académica que fica na memória dos que por lá passam. Também tu terás andado pelo Penedo da Saudade a fazeres serenatas ao luar ou às janelas das caloiras nas ruas da alta?
Observei atentamente o pelicano da primeira edição da tua obra Os Lusíadas, exposto num lugar de destaque logo à entrada da sala, uma espécie de altar num espaço sagrado onde tudo nos levava até ti. Comovi-me, confesso-te.
Voltarei um dia destes a escrever-te para te falar de uma nova aventura na minha escola, no próximo ano letivo. Falaremos muito de ti. Por enquanto, vou levar comigo para férias o livro que escolheria se não pudesse ter outro: a tua e a nossa epopeia.
Até breve!
Ana Albuquerque















