A relação – literária e pessoal – entre Machado de Assis (1839-1908) e Eça de Queirós (1845-1900) tem merecido o interesse por parte de investigadores e estudiosos, e está «abundantemente documentada», como refere Carlos Reis no seu artigo «Eça e Machado: desencontro epistolar».
Não versa o presente texto sobre essa relação que, embora caracterizada pela admiração recíproca, ficou marcada pelo facto de Machado de Assis ter criticado O Primo Basílio e afirmado que O Crime do Padre Amaro era uma imitação de La Faute de l’Abbé Mouret, de Émile Zola, acusação que, fundamentadamente, Eça rejeitou.
Versa este breve texto sobre a relação que se estabelece entre a escrita de Eça, em Singularidades de uma Rapariga Loura (conto publicado pela primeira vez em 1874 e mais tarde compreendido no volume Contos, publicado postumamente em 1902) e em S. Cristóvão (conto que, juntamente com Santo Onofre e São Frei Gil, integra o volume Lendas de Santos, publicado «em data incerta, durante a década de 1890» e publicado «postumamente, em 1912, por Luís de Magalhães, em Últimas Páginas», como nos diz o Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, disponível em linha), e a escrita de Machado, em Dom Casmurro (escrito em 1899 e publicado no ano seguinte).
A descrição da gravata de José Dias, personagem da obra absolutamente extraordinária que é Dom Casmurro, lembra a descrição da gravata de Macário, em Singularidades de uma Rapariga Loura: se Machado diz «A gravata de cetim preto, com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço», diz Eça que «Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela», o que aproxima as personagens quanto ao vestuário e à imagem.
Se a moda da época poderá justificar as idênticas formulações verbais usadas na descrição das gravatas, já o uso criativo que Machado e Eça fazem da língua não segue padrões, a não ser o da riquíssima expressividade linguística que confere a cada um dos autores um estilo muito próprio, que não os impede, no entanto, de partilharem preferências estilísticas. Na verdade, se o narrador queirosiano se refere a Macário dizendo que «ia calado, cosido com o corrimão» (Singularidades de uma Rapariga Loura), e diz do bom mateiro, no conto S. Cristóvão, que «ia cosido contra a sebe espinhosa», também Bentinho diz, em Dom Casmurro, «Cosi-me muito à parede», tal como «cosido à parede» entrava e saía de casa Pádua, outra personagem da galeria machadiana.
Posto isto, é caso para dizer: cada obra com seu fuso, cada autor com o mesmo uso.
















