ARTIGO DE OPINIÃO: heresias consentidas – “Brasileirices”

08/04/2021 21:00

“Nunca houve uma vida desinteressante. Isso é uma impossibilidade. Dentro do exterior mais monótono, há um drama, uma comédia e uma tragédia.”

(Mark Twain)

Julgo ser insuspeito para falar do Brasil, pois quem me conhece bem sabe que eu amo aquele País maravilhoso e as suas gentes não menos maravilhosas. De todas as vezes que ali me desloquei, e foram já algumas, sempre fui tratado como um verdadeiro Príncipe e fiz amizades que perduraram ao longo dos tempos.

Dói-me imenso, portanto, perceber a estupidez de uns quantos xenófobos – tanto de cá como de lá – que passam o tempo a inventar falsas questões e a incendiar os ânimos de uns e outros.

A mais recente rede social, o Tik-Tok, e.g., está cheia de uns tristes desocupados que insistem na palhaçada do «devolvam o nosso ouro», mas, infelizmente, não devem nunca ter ouvido falar do «Tratado de Tordesilhas».

Ressalvo, a propósito, que eu não considero os brasileiros burros, muito pelo contrário!… também não considero os portugueses burros, muito pelo contrário!… Agora, sejamos lúcidos, por favor: existe gente muito e muito burra num País e no outro? mas é claro que existe e existe numa quantidade que nos deixa preocupados e perplexos!…

Eles chumbam que nem tordos no ENEM? e nós? alguém faz ideia, e.g., da ignorância atroz de um aluno nosso do Ensino Superior?…

Lamento que os brasileiros se esqueçam de que só havia Índios quando em 22 de Abril de 1500 Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil; e, da mesma forma e com a mesma tristeza, também lamento que os portugueses se esqueçam de que somos um País de emigrantes espalhados pelos quatro cantos do Mundo.

Entre 1958 e 1974 saíram de Portugal cerca de 1,5 milhões de indivíduos. Só no ano de 1973 foram cerca de 123 mil e no ano seguinte, apesar de todas as restrições entretanto criadas na Europa à emigração, saíram do país mais de 70 mil pessoas, num movimento que mudou a face da sociedade portuguesa.

Portugal é, ao longo de quase dois séculos, inequivocamente, um País de emigrantes.

Assim sendo – questiono-me na minha inocência – porque raio andam para aí uns imbecis a gritar aos brasileiros «voltem para o vosso País»? 

Párem que está feio!…

Só gente muito estúpida e de muito má-fé pode ignorar ou/e minimizar a importância das remessas dos nossos emigrantes lá fora, por um lado, e, por outro lado, a importância dos imigrantes cá dentro, a mão-de-obra que não temos e, naturalmente, os talentos de que tanto precisamos para potenciar o crescimento e o desenvolvimento de Portugal.

Recebemos aqui imensos brasileiros que não valem a ponta-de-um-corno? Recebemos, sim, mas também sei de muito criminoso português que anda lá pelas «estranjas» a arrastar a nossa bandeira pelas ruas da amargura. 

Como diz o nosso povo, «há de tudo, como na Farmácia» e não vale a pena chorar o leite derramado.

Somos dois Países enormes, cada um à sua maneira, com identidade e características muito próprias, e a verdade é que temos muito mais o que nos une do que aquilo que nos divide.

Platão e o seu mito da caverna explica muita coisa. Ao lado de lá e ao lado de cá do Atlântico. Só é preciso, de vez em quando, pôr de lado o Tik-Tok e pegar nuns quantos livros. Mal não vai fazer, eu garanto.

Obs.: Dêem lá as voltas que derem, o miserável Acordo Ortográfico, graças a Deus, não alterou nem vai alterar nunca a maneira como falo e escrevo o português. É, digamos assim, o meu exercício de resistência pacífica e a minha declaração de cidadania.

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