Se consideramos que, em nosso entender, não será por acaso que caiba à luz matinal de um abril primaveril o papel de nos apresentar um Afonso da Maia revigorado, quando a sua morte era dada como certa, também não será por acaso que a mesma fresca luz da manhã assista à morte da aia, ainda que pudesse, apesar dos indícios, não ser esperada.
Se as personagens que estão com a ama na câmara do tesouro real tivessem lido o início do conto A Aia, quando o narrador diz que ela «Pertencia, porém, a uma raça que acredita que a vida da Terra se continua no Céu.», talvez não a tivessem deixado escolher, como recompensa por ter impedido que o principezinho sucumbisse às mãos do odioso tio bastardo, o punhal com que, firmemente, se veio a matar.
A aia sabia que a vida do reino lhe custaria a morte do filho, mas não hesitou em trocar os bebés de berço, colocando a sua lealdade de serva acima do seu dever de mãe, porque acreditava nessa vida eterna que lhe permitiria reencontrarem-se no Céu. Não será por acaso, pois, que o punhal escolhido pela aia esteja «todo cravejado de esmeraldas», em representação da esperança que a cor verde simboliza. Não será por acaso que, se a noite testemunhou o assassínio do filho, seja agora «a luz da madrugada, já clara e rósea» a ser chamada a testemunhar o suicídio da ama, e não será também por acaso que, pouco antes de ir ter com o filho, a aia tenha erguido os olhos «para aquele céu que, além das grades, se tingia de rosa e ouro» e que tenha escolhido precisamente o momento em que «subiam os primeiros raios do Sol» para cravar o riquíssimo punhal no coração.
Afonso escolhe viver na Terra por amor ao neto, a aia escolhe viver no Céu por amor ao filho. As formas de vida são diferentes, mas o movimento é sempre ascendente: caído, Afonso levanta-se; caída, a aia sobe.















