Para muitos poderá ser a maior obra de literatura de viagens, a primeira porta misteriosa que se abriu para que muitos outros ousassem sonhar através da escrita de viagens. É essa a maior magia da literatura, abrir janelas ou portas para os sonhos. Sem grandes aventureiros sonhadores como Marco Polo, o mundo continuaria muito possivelmente uma vasta e amarga mancha escura, cinzenta, previsível.
Corria o ano de 1271. Anunciando o entusiasmo e a curiosidade da Renascença pelas viagens e o fascínio pela China, pelos seus costumes e riqueza, o jovem Marco Polo dá início, na companhia do pai e do tio, a um périplo em direção ao império desconhecido do Grande Khan, o imperador mongol da China. Quando regressa, 25 anos mais tarde, o seu relato e as suas descobertas vão revolucionar a imagem do mundo e das viagens ao longo dos séculos seguintes…
Desde criança que estas aventuras me fascinavam. Na minha primeira enciclopédia, uma difícil prenda que consegui arrancar aos meus pais (teria eu uns 14 anos), encadernada a negro, incluía-se um capítulo especial sobre o Marco Polo, com ilustrações majestosas que me criavam água na boca.
Escrevo-vos sobre esta maravilhosa aventura, porque acabei de ler uma nova (e absolutamente notável) reedição destas viagens maravilhosas, uma edição em Banda Desenhada da Gradiva, da série DESCOBRIDORES. Absolutamente admirável e por várias razões imperdível. Pela conceção de Christian Clot, ele próprio um explorador. Pelo desenho belíssimo de Fabio Bono, que reconstitui expressivamente e enriquecedoramente os lugares, os costumes, a época. É um maravilhoso álbum de recordações de outras épocas, descrição de povos e lugares, ilustração de cidades que já desapareceram, reconstrução de rotas comerciais e ambientes idílicos de outros tempos.
Christian Clot dirige expedições de exploração científica em ambientes extremos no nosso planeta. A sua constante interrogação sobre a capacidade do ser humano de se adaptar ao seu ambiente rapidamente ligou as suas expedições ao trabalho científico. Comunica através de conferências, livros e filmes, pelos quais recebeu vários prémios. Desde sempre fascinado por banda desenhada, é autor de vários livros. Fabio Bono (n. Sanremo, Itália; 1971) estudou na Escola de Banda Desenhada de Milão. Em 1993, é-lhe atribuído um prémio no Salão internacional de Humor de Bordighera. Desde 1994, trabalha para numerosas editoras italianas e estrangeiras, como Corrierino dei Piccoli, Warner Bros, Stratelibri, Chaosium e Éditions Piemme. Com o argumentista Gino Udina, cria duas bandas desenhadas no ano 2000, The Kingdom e Tao. Entre 2004 e 2007 cria com a sua mulher Marzia oito livros ilustrados infantis de uma série intitulada Nonno Gidio. No mercado francês, em 2009 desenha Confessions d’un Templier para as edições Soleil, que já teve direito a 3 tomos. A série Cathares, iniciada em 2011 para a editora Glénat, concluiu no 3.º tomo. Para a série Explora da Glénat (Descobridores – Gradiva BD) desenhou os dois álbuns dedicados a Darwin e os dois dedicados a Marco Polo.
Em cada página de surpresas, vamos revisitando os lugares santos, as enigmáticas estepes asiáticas, fortalezas perdidas como SAROUJ OU BANDAR-ABBAS, desertos arrepiantes como o DESERTO DO SAL, mausoléus sumptuosos como o de MAZAR-E-SHARIF, ou o vale das COLINAS DAS CINCO CORES…
Por ser uma «lição» viva de geografia, história, relações interculturais, da relação com o outro, e sobretudo por ser uma maravilhosa obra ilustrada sobre um dos momentos maiores da História do Mundo, um álbum maravilhoso de arte aos quadradinhos (uma técnica gráfica exemplar, num registo realista cinematográfico, uma paleta notável, um respeito rigoroso pela História e pela Cultura ancestral), e uma narrativa bem contada, eu aconselho a leitura (e se possível a compra, para integrar a biblioteca de cada um).
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