Como habitualmente, encontraram-se no final das aulas do 12.º ano, ali entre as áreas de competência do perfil dos alunos e as aprendizagens essenciais, para um jantar de confraternização literária em que os convivas – que se sentavam nas cadeiras de referenciação pela ordem de chegada (por se ter revelado frustrada a tentativa de os sentar pela ordem de lecionação) – se divertiam a fazer apostas sobre qual deles sairia no próximo exame. Tu já não sais este ano, ó Camilo, saíste no ano passado, nem esperaram pelos teus 200 anos, o mais certo é saíres tu, Camões, que andam a comemorar os teus 500 desde o ano passado! Não sei, acho que dá um bocado nas vistas, salvo seja, eu cá acho que o Pessoa tem mais hipóteses. Olha que novidade, se não sair um, sai o outro, o que vai dar ao mesmo. Não é justo, ainda agora ganhámos a Liga das Nações, ficava bem o Garrett. Ah, ou o Lopes. Lopes? Tento na língua, que fui cronista do reino. Lopes, Fernão Lopes. Sim, aquela parte do cerco vinha mesmo a calhar, podia sair. Quem sai sou eu, afirmou nesta altura Saramago, levantando-se do chão. Da sala? Do cânone, homem, do cânone. Já estive mais longe. Anda lá, não digas isso, alguma vez te tiravam o lugar? Ainda agora me tiraram a cadeira, é um sinal. Contra sinais e agouros, é só abrir as janelas e deixar entrar o sol. Cala-te, ó Eça, a tua sorte é ninguém ler Os Maias até ao fim, ou não falavas assim. Vá, calem-se. Não me digam que tenho de vos dar um sermão. Passa aí o sal. É verdade, e o Cesário? Outra vez a deambular? Credo. Foi animar o Antero, está outra vez naquela fase. Outra vez? «Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mimdentro!» Menos, menos, haja decoro, há cantigas de amigo na sala. E se sair um conto? Olha, isso é que era bom para os alunos, acrescentava-lhes um ponto. Bom, eu cá continuo na minha e acho que sai Camões. Eu até gostava de sair, parece que em Aguiar da Beira seria bem recebido. Como é que sabes? Tenho lá os meus contactos. A lírica ou Os Lusíadas? Um soneto. Tenho sonetos lindíssimos. Às vezes, até duvido que tenha sido eu a escrevê-los. Só não gostava que saísse aquele excerto do Frei Luís de Sousaem que fiquei pendurado ao lado do D. João de Portugal e do D. Sebastião. Fiquei muito mal no retrato. Bom, isto para não falar da minha estátua em O Ano da Morte de Ricardo Reis, que também não me favorece, não achas, ó Saramago? Ó pá, acontece aos melhores, olha a do Ronaldo.
P.S. Texto inicialmente publicado na edição de 14 de julho do jornal Mais Aguiar da Beira










