Era uma vez uma palavra que, à saída de um conto, pediu o livro de reclamações. O funcionário que estava de serviço pediu-lhe a identificação, que é a mesma coisa que pedir a uma palavra a sua origem etimológica e a classe. A palavra vinha de longe e já não sabia muito bem se tinha nascido com consoante dupla ou não e o funcionário teve de fazer uma chamada para a entrada – do dicionário, claro – para confirmar a grafia. Sabe como é, se os dados não estiverem certos, não podem ser lançados, justificou-se, perguntando-lhe logo a seguir se tinha plural. «Vim sozinha», disse a palavra. Quando o funcionário respondeu que não fazia mal, a palavra disse «Isso é que não, faça o favor de me tratar pelo meu nome, quer dizer, adjetivo, que estou farta de sinónimos e afins!» O funcionário não percebeu o que a palavra queria dizer, acontece afinal a todos, e pensou que não era só na escola primária que havia palavras difíceis, tinha ali uma à sua frente, tão inclinada sobre o balcão que foi por um triz que o acento agudo que trazia não lhe vazara uma vista. Há profissões muito arriscadas, pensou ele, enquanto a palavra pensava o mesmo de si mesma. Os escritores, com aquela mania da imaginação e da liberdade criativa, então aqueles que nascem a 28 de janeiro são os piores, usam as palavras como querem e lhes apetece, sem sequer lhes perguntar se não se importam de ceder os seus direitos para novos sentidos. «Quero apresentar queixa contra o Vergílio, o Ferreira, por roubo de propriedade lexical!» disse a palavra, acrescentando que não estava para passar por «inoque» ou, pior, «noque» – tinha uma ortografia a defender – ou servir de palavra de arremesso, logo ela que não se metia com ninguém e andava agora ali a torto e a direito a servir de insulto e de ofensa. Quem não se sente, não é filho de boa gente, vale para pessoas e para palavras, e ela, lá no fundo do seu étimo, sentia ter perdido o significado que tanto se esforçara por fixar.
O funcionário perguntou à palavra se tinha a certeza de querer avançar com a queixa, se não estaria a levar as coisas muito a peito, afinal o título do conto até era lisonjeador, A Palavra Mágica, mas a palavra já tinha sido dada e não voltou atrás, a não ser para olhar para a fila que esperava a sua vez, encabeçada por uma palavra que se contorcia enquanto levava as mãos às costas, queixando-se de dor de rins e do desplante de Camilo, que se lhe referira, em Aventuras dum boticário de aldeia, como «dor de reins».
















