Assistimos, nos dias de hoje, a uma campanha desenvolvida por grandes cadeias de distribuição alimentar a atestar a superlativa qualidade dos seus produtos de marca branca, isentos de químicos (imagine-se!). Os químicos citados na publicidade são os “E” com menção obrigatória no rótulo e lista de ingredientes utilizados na elaboração de diversos produtos.
No caso de se darem ao cuidado de analisar a lista de ingredientes desses produtos, os “E” são uma constante.
A investigação alimentar procura, nesta fase, utilizar novas formulações e diferentes ingredientes, com iguais propriedades (conservação, edulcorante e outras), com o propósito, e bem, de diminuir a presença dos mesmos, agora apelidados químicos na lista de ingredientes.
Importa referir que a utilização dos “E” se encontra devidamente regulamentada na UE, com valores máximos possíveis de utilizar nos diferentes grupos de alimentos.
As presentes campanhas têm como propósito aparente o aumento da procura destes produtos. As cadeias de distribuição não são produtores de bens e, pelo que sei, também não o ambicionam ser. Socorrem-se, sim, de produtores/fabricantes existentes no mercado nacional e internacional, para adjudicar estes produtos que são, apenas e só, cópias dos existentes com marca própria.
Os custos de desenvolvimento de novos produtos/receitas são algo que não está no seu radar de prioridades, e os resultantes da implantação e penetração no mercado também não importa mensurar. Têm conhecimento de algum produto de marca branca que não existe como marca própria? Eu, honestamente, desconheço, mas conheço os custos associados à criação, divulgação e implementação de produtos no mercado.
Atrevo-me a equacionar que o que está na base desta beneficente iniciativa não é a falta de qualidade dos produtos de marca branca, devidamente atestados por análises em laboratórios acreditados, mas sim a entrada de novos players que disputam acerrimamente e de modo assertivo a cota de mercado.
Também não podemos deixar de equacionar que, por norma, os produtos de marca própria atestam um nível de qualidade superior aos de marca branca. Os produtos de marca própria são elaborados com ingredientes de qualidade superior, não sofrem tanta manipulação e habitualmente não possuem tantos conservantes, edulcorantes, gelificantes, agora designados de químicos.
O que, de uma vez por todas, as grandes cadeias de distribuição deveriam fazer era diminuir as suas margens de lucro (em muitas situações dantesca, 300%), e desenvolver políticas de pagamento e recebimento bem distintas do praticado. A grande distribuição paga a 90-120 dias e recebe no ato da compra. Em produtos perecíveis, como a fruta e os legumes, assistimos nesse período (90-120 dias) a uma rotação de mercadoria inigualável envolvendo toneladas de alimentos.
Para um financeiro que pretende ficar bem na fotografia, esta é uma das melhores e mais antigas receitas a aplicar com resultados empolgantes.
Os químicos existem na cadeia alimentar e vão continuar a existir, podem é mudar de nome, mas as suas propriedades são uma marca incontornável e, à data, insubstituível.
Rui Coutinho
Rui Pedro Coutinho é formado em Engenharia Agroalimentar, licenciado em Enologia e mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar. Técnico superior na Escola Superior Agrária de Viseu (ESAV), responsável pela área dos laboratórios, e a frequentar o curso de doutorado em Nutrição e Bromatologia, o académico tem participado em vários projetos agrícolas, alimentares e de biotecnologia. Os seus interesses centram-se nas áreas de controlo da qualidade alimentar, análise de alimentos, microbiologia, biotecnologia, viticultura, olivicultura, fruticultura, enologia e indústrias dos lacticínios e novos extratos alimentares.















