ARTIGO DE OPINIÃO: Abertura de espírito

03/06/2023 18:24

Quando estamos na presença de uma obra de expressão artística, não existem respostas certas ou erradas na sua apreciação. O mais importante é estar aberto e curioso e permitir-se ser tocado e inspirado pela obra em si. Acontece-me várias vezes na contemplação da natureza, mas, felizmente também, no fruir e na contemplação de certos livros, pinturas, músicas, bailados, peças teatrais… Ora, esse olhar aberto canaliza a emoção perante o que realmente designo de obra de arte, ou seja, aquilo que me emociona. Se não me emociona, na minha opinião, não é arte, muito embora o possa ser para tantos outros, porque válida e legitimamente os emocionará, claro. Pelo menos, assim o espero.

Mais do que nos questionarmos sobre a mensagem ou intenção do artista ao criar a sua obra ou sobre que ideias ou temas ela representa, ou ainda, de que forma ela se relaciona com a sociedade ou com o mundo em geral, interessa-me a ampla gama de emoções, esse maravilhoso caleidoscópio de “sentires” – desde a alegria e admiração, até à tristeza e melancolia que ela me suscita, atravessando eventualmente os caminhos da angústia, alívio, euforia, encantamento, desilusão, dor, eu sei lá. Importa é eu sentir alguma coisa que de amorfia emocional está o mundo cheio. Ela – a obra – pode me fazer sentir inspirado, surpreendido, perplexo, revoltado ou até mesmo desconfortável. Vale tudo, desde que sinta qualquer coisa. Os pelos dos braços a levantar, o nó no peito, o amargo da boca, os dentes serrados, os olhos marejados … eu sei lá. Desde que sinta. Cada pessoa reagirá certamente de maneira diferente a uma mesma obra, mediante as experiências pessoais, crenças, valores, memórias que influenciam diretamente a forma como nos relacionamos com a arte. A nossa arte tem uma espécie de impressão digital só nossa também. E isso é maravilhoso e não deve ser desperdiçado, porque faz parte da nossa identidade. Por isso desconfio da crítica artística e mais ainda de quem a lê, ouve ou se “cultiva” com base nela. É um pouco como mandar alguém na nossa vez renovar o Cartão do Cidadão. “Vai lá tu… és mais fotogénico!” 

Acredito que, na apreciação da Arte, o importante é a atitude mental que envolve receptividade, flexibilidade e predisposição para conhecer e explorar as emoções que suscitam novas ideias, perspectivas e experiências. É a capacidade de se estar aberto ao novo, ao desconhecido, ao diferente e ao inesperado, sem julgamento prévio, preconceito ou “resenha crítica” na algibeira. Abertura de espírito. Sim, isso. E um peito aberto.

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