Há uma solidão particular que só quem faz e dirige teatro conhece. Não é a mesma do escritor, que enfrenta a página em branco; nem a do ator, que constrói o seu personagem no palco à frente de todos. A solidão do encenador mora na profundidade dos bastidores — é uma solidão com eco.
Ser encenador é, muitas vezes, ser o único a carregar uma visão que ainda não existe para mais ninguém. Enquanto todos veem caos, eu preciso ver arquitetura. Enquanto os outros experimentam, eu preciso decidir. E, no fim, quando a luz se apaga e o público aplaude, são os atores que colhem o calor. Eu fico na penumbra, entre o orgulho e a dúvida.
Há noites em que me pergunto se fui claro, se fui justo. Se a cena que retirei anteriormente não seria, afinal, o coração da peça. Se as minhas escolhas não amputaram algo essencial que os outros viam e eu não quis ver. O encenador vive entre a certeza e a vertigem.
Nos ensaios, todos me olham à espera de respostas. Mas há dias em que eu só queria perguntar. Só queria sentar-me na plateia e esquecer que sou eu quem conduz. Só queria que alguém me dissesse: “Vai por aqui.” Mas não. Ser encenador é também aceitar esse silêncio. Esse momento em que ninguém pode entrar no teu labirinto.
Ainda assim, amo essa solidão. Porque dela nascem os encontros mais verdadeiros. Quando tudo dá certo — mesmo que por segundos — e vejo um gesto, uma fala, uma respiração que era exatamente o que imaginei… então, por um instante, deixo de estar só.
E é por esses instantes que volto. Volto sempre.
António Leal
Encenador / Diretor Artístico