Na viagem de regresso à pátria, depois de navegados os mares até à Índia, Camões, na sua obra-prima, Os Lusíadas, oferece aos nautas, na sua rota, uma ilha «afortunada» que não tem localização geográfica.
Sabe que os marinheiros precisam de água pura, de caça abundante e de descanso, depois das peripécias infelizes por que passaram em terras tão longínquas. Precisam de alimento para o corpo e para a alma. Merecem um prémio. E esse prémio vem sobre as ondas, trazido por Vénus, a deusa do amor e da beleza.
O poeta descreve-nos a singularidade deste local: uma enseada na costa, a areia branca e fina, matizada de conchas avermelhadas, três soberbos outeiros cobertos de erva verdejante, fontes de água límpida que jorram dos cumes, desaguando num vale coberto de arvoredos, muitos deles carregados de frutos e de aromas, o chão coberto de vegetação rasteira, arbustos, plantas medicinais e flores.
Nas águas, pinta cisnes brancos. Correm lebres, gazelas e deusas belas pela floresta densa. Os nautas famintos correm para alcançá-las. Duvidam dos olhos que as veem. Elas, primeiro, mostram-se difíceis, mas, depois, fingidamente rendidas, deixam-se apanhar e ouvem-se beijos e gemidos de amor pelos recantos: «O que mais passam na manhã e na sesta/ Que Vénus com prazeres inflamava, / Melhor é experimentá-lo que julgá-lo; / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.»
As deusas coroam os marinheiros com louros e flores abundantes, dando-lhes as mãos como esposas. Uma delas, a mais prestigiada, recebe com pompa e circunstância o capitão, Vasco da Gama. Leva-o até ao cume de um monte onde se erguia um palácio feito de cristal e ouro e é ali que ambos passam o dia em doces jogos de prazer, compensando as agruras e as desditas passadas.
Depois da «corporal necessidade» satisfeita num banquete cheio de iguarias, a deusa Tétis conduz Gama e os seus marinheiros por um mato espesso até ao cume maravilhoso onde se estende um campo cheio de esmeraldas e rubis, um solo divino, em cujo céu está um globo, que está de tal modo iluminado pelo sol que se vê tudo no seu interior. Os nautas perplexos observam o mundo, a sua organização, o conhecimento que só é dado a eleitos, escolhidos por Deus: «É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende/Que a tanto o engenho humano não se estende».
O poeta explica-nos que as ninfas do oceano e a ilha não são verdadeiras, elas representam, simbolicamente, as honras, os triunfos, a glória merecida por todos aqueles que se sacrificam para realizarem os seus objetivos, aqueles que «por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.» Remata, aconselhando-nos a sermos merecedores de prémios como este dado aos nautas e, para isso, devemos despertar da passividade, da apatia, do conformismo, da inveja, da ambição desmesurada, da tirania, procurando ser justos, lutadores e audazes.
Colocam-se hoje muitas questões sobre a dificuldade de leitura desta obra ímpar. Contudo, se a lermos com atenção e gosto, nela descobriremos muitas razões para refletirmos sobre a sua intemporalidade. Há valores universais e intemporais que não passam de moda.
Com esta ilha, o poeta quer mostrar-nos que os melhores prémios são, indubitavelmente, o amor e o conhecimento. Quem poderá viver sem eles?
Ana Albuquerque
















