ARTIGO DE OPINIÃO: A mudança e o seu processo cerebral

17/09/2022 19:30

Para mim, o “ano novo” é em Setembro e não em Janeiro. Talvez pelos 12 anos de escolaridade obrigatória mais alguns anos no ensino universitário, talvez pela mudança de estação e final das férias ou simplesmente porque assim prefiro, para mim o começo de um novo ano inicia-se no dia 1 de setembro. E, tal como todos os bons começos, este início acarreta a necessidade de mudança e de fazer algo de forma diferente.

Parece-me importante associar a mudança com o conceito de neuroplasticidade. Este conceito define-se como a capacidade do cérebro de mudar a sua estrutura com base nas experiências, comportamentos, emoções e até mesmo pensamentos vivenciados pela pessoa. Inicialmente, quando se começou a estudar o cérebro humano, acreditava-se que, até ao fim da adolescência, o cérebro tornava-se completamente formado e definido. Hoje em dia, sabemos que isso não é verdade. O nosso cérebro é capaz de se modificar até ao fim da velhice. Mesmo com lesões cerebrais ou dificuldades cognitivas, através da neuropsicologia e da estimulação realizada pelos profissionais de saúde, é possível transformar as funções cerebrais, possibilitando recuperar as capacidades perdidas ou não desenvolvidas. 

Esta capacidade de metamorfose torna o nosso cérebro extremamente resiliente, mas também o torna muito vulnerável a influências externas e internas. O nosso cérebro forma conexões neuronais com base no que fazemos repetidamente na nossa vida. 

Posto isto, muitas das nossas ações diárias são automáticas. O nosso cérebro gosta do modo “piloto automático” e do que é conhecido por ele, principalmente por uma questão de gestão de recursos energéticos. O conhecido não exige tanta energia do corpo para processar. Fazendo alusão à evolução do ser humano, saber identificar perigos e ameaças foi essencial para nossa sobrevivência como espécie. Antes de assentar e explorar a agricultura, o homem alimentava-se do que encontrava pelo caminho tal como frutas, raízes e pequenos animais. E, neste cenário, ser capaz de diferenciar o que era nutritivo ou venenoso foi algo decisivo para se manter vivo. Da mesma forma, um barulho a meio da noite ou encontrar um animal de maior porte exigiam interpretação e reação rápidas. Tudo que era desconhecido e novo gerava, assim, um sinal de alerta. Não é por acaso, então, que a mudança seja algo tão desafiador para nós e que resistir ou temer o novo sejam um comportamento recorrente nos seres humanos. 

Uma boa parte do nosso comportamento é orientado pelo princípio básico de minimizar riscos e maximizar recompensas. O nosso cérebro interpreta cada estímulo como uma ameaça ou recompensa e despoleta no nosso corpo as reações necessárias para lidar com esse novo evento. É um processo rápido e inconsciente.

Assim, os nossos hábitos e rotinas são o que nos molda, tanto os bons como os maus. Sempre que agimos da mesma maneira, um padrão neuronal específico é estimulado e fortalece-se no nosso cérebro. Quando tentamos adotar um novo comportamento pela primeira vez, são então necessários mais recursos e energia do nosso corpo no processo, o que faz com que o cérebro crie mais barreiras e dificuldades. Quando já executamos a nova rotina o suficiente para que as conexões sejam feitas e fortalecidas no nosso cérebro, o comportamento exigirá menos esforço, pois torna-se o padrão e o conhecido. 

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