O nosso fim é impensável, nunca queremos pensar nele. Vivemos como imortais até que um dia recebemos a terrível e inesperada notícia que temos cancro. Neste livro, a palavra cancro aparece sempre grafada a negrito. Há um antes e um depois da notícia e a única hipótese de imortalidade é ficarmos num livro como este.
Jorge, Fátima, Alice, João, Daniel e Filipe são estes os nomes (falsos, obviamente) dos doentes oncológicos do IPO do Porto que serão as personagens principais deste romance. Contudo há outras duas fundamentais: o Escritor, sim com letra maiúscula no início da palavra, qual nome próprio, assumindo a voz na terceira pessoa, e o autor, usando o pronome pessoal «eu» e outras marcas pessoais no discurso, o pai do escritor, o pai do autor, são personagens omnipresentes ao longo da narrativa, brilhantemente urdida.
O processo de construção do romance é um tema tratado insistentemente nesta obra. Aliás, José Luís Peixoto já nos habitou a fazê-lo noutros dos seus livros. Se, por um lado, este tema se repete, há outro permanentemente inscrito nos seus livros, parecendo que, através da escrita, procura exorcizar a morte, a morte do pai, também ele vítima de cancro: «O meu pai chama-me trago a sua voz sempre comigo o meu pai está dentro do livro e está dentro de mim». Esta presença é igualmente assegurada pela inclusão de duas fotografias de um conjunto de crianças e de um conjunto de homens onde está também o pai do autor, antes de ser seu pai. Ficará também com o livro. Imortal.
O livro estrutura-se em diferentes capítulos que nos relatam as vidas reais recontadas por estes doentes do IPO do Porto, nas suas conversas gravadas com o Escritor, sempre acompanhado de um médico, um cirurgião torácico, que o interpelou a escrever este livro, e de uma psicóloga. Os doentes são todos da área do Porto, à exceção de um que vem de Oliveira de Frades. Conhecemos os seus passados, os seus projetos, as suas ilusões. Acompanhamo-los ao longo dos corredores do hospital. Sentimos os cheiros, os sons, as luzes, as vozes daquele lugar.
Por outro lado, assistimos às viagens reais do Escritor que faz o percurso de Lisboa ao Porto para falar com as suas “personagens”. Durante estas viagens, percorremos também os quilómetros de pensamentos e de conversas que ele enceta dentro da sua cabeça em turbilhão, sempre acompanhado pela voz do pai que, constantemente, o interpela «Não ouves?»
Para além destas viagens, o Escritor, o autor, dá-nos conta de uma multiplicidade de outras viagens, deslocações a feiras do livro internacionais, a apresentação de livros noutros países, a participação em inúmeros colóquios em escolas, em instituições culturais por esse mundo fora. Viagens fora e dentro de si.
Na sua mochila leva uma tese, sugestivamente intitulada Fragmentação na Literatura Europeia Contemporânea, de um certo Bjorn Alepson, um escritor, um sueco de quem pouco se sabe. Será ele real ou imaginário? Dele só sabemos que usa um estetoscópio. Mais tarde encontrá-lo-emos de bata branca. Quem é, afinal?
Se o romance convive com a vida de pessoas reais, é igualmente verdade que, no decurso da narrativa, somos surpreendidos por uma atmosfera de alucinação, de delírio criativo. Na sequência de uma das múltiplas viagens do escritor, em que pressupostamente é convidado para fazer uma palestra na Suécia, ele entra num outro mundo, numa outra dimensão, numa amnésia dos acontecimentos que o levaram até àquele lugar.
Bjorn Alepson, que o havia convidado para a tal palestra, faz dele seu prisioneiro. Encerra-o num quarto, com uma janela. De lá o Escritor apenas vê uma montanha. A única possibilidade de contacto com o mundo real: «A montanha era a última forma antes do fim de tudo o que existia, recortada no horizonte, corpo enorme que observava o mundo». O telemóvel e o computador estão controlados por um conjunto de ecrãs estrategicamente colocados no quarto. O Escritor vive anestesiado do mundo.
Esse é o refúgio onde terá de escrever com urgência, terá de acabar uma narrativa que se prolonga para lá do tempo previsto. Alguns dos doentes vão morrendo sem o livro estar acabado. Mistura-se realidade e ficção. Vida e imaginação, num diálogo surrealista, sem explicação verosímil. A tal tese, sabemo-lo no fim, tinha, surpreendentemente, outro título, talvez o verdadeiro, aquele que foi deturpado pela imaginação delirante do Escritor, Fragmentação Psicótica na Identidade de um Paciente Oncológico.
Na última parte, em jeito de posfácio, o Escritor, ou melhor, o autor, diz-nos, ironicamente, que nem tudo tem de ser explicado, não há explicação para tudo o que acontece na vida nem para tudo o que acontece na escrita. «Quando existir, o livro será uma manta, composta por um número incalculável de fragmentos, eu próprio hei de perder-lhes o conto, hei de perder-lhes o rasto, hei de perder a memória dos instantes em que nasceram, dos lugares em que nasceram.»
Magistral este livro. Tecnicamente diferente de todos os outros. Nele se confirma a maturidade da escrita de um dos melhores autores da literatura portuguesa contemporânea.
Ana Albuquerque










