Enquanto criador, considero que o “meu” destino final é o público. Quero com isto dizer que defendo que, se apresento propostas artísticas públicas em salas de teatro ou outros recintos destinados ou improvisados para o efeito; se vendo bilhetes de acesso ao meu conteúdo artístico ou o disponibilizo perante outras condições, mesmo que gratuitas, mas “vendendo” um conceito como público ainda que seja pela divulgação e promoção que faço do destino público dele, então a minha preocupação primeira é não defraudar quem sai de casa para ver o que fiz. Francamente, não partilho a visão do artista que produz conteúdos públicos, mas na verdade procura dirigi-los apenas a uma pretensa elite cultural ou que se preocupa mais no seu objetivo artístico em agradar os seus pares ou a crítica, do que o público para quem pretensamente destinou o seu produto. Em todas as vertentes artísticas existe uma franja de criadores com uma tendência esquizofrénica de produzir “para inglês ver” e que pulveriza de forma tendenciosa os colegas quando estes procuram uma natural comunhão com o comum dos mortais que está sentado no público. O importante para estes seres iluminados de cultura – acredito eu – nunca é o publico anónimo, mas sim o seu próprio umbigo ou uma eventual rede de influências que conseguirão gerar e depois gerir.
Se é certo que “cada um sabe de si”, menos certo e sério é – a meu ver – hierarquizar em função disso. Nem sempre um espetáculo cheio de público satisfeito, mas menos elitista é um espetáculo mau ou “simples” ou brejeiro.
Ao longo da minha carreira, nunca me subverti aos “conselhos” de intelectualizar conteúdos em detrimento daquilo que considero o gosto popular, sem querer com isto dizer que este gosto popular tem de ser invariavelmente definido como parolo, básico ou brejeiro. É uma questão de missão e sobretudo de bom gosto. Mesmo que seja mais simples de entender, de interpretar ou de usufruir. Renego a tendência de hermetizar os conteúdos para gáudio ou massagem de egos inchados de intelectualidade inatingível, mas sedentos de aprovação das elites que pululam no palco nacional e no meio artístico, onde obviamente me incluo. Em todas as áreas da vida artística há uma tendência para – à luz de uma certa soberba – menosprezar a visão artística alheia e considerá-la menor, por não coincidir com determinados interesses, gostos ou padrões artísticos considerados de elite pelas elites.
Sou livre e a minha liberdade não tem preço. A minha elite é o público – o único juiz do meu trabalho. Felizmente, existem ainda muitos colegas artistas que partilham comigo esta visão e postura. É com eles que partilho e quero partilhar este frágil, mas incrível palco que é a vida. Porque, quando o pano cair no último dos meus dias, prefiro levar comigo a música do aplauso, do que o sabor insípido a papel de uma crítica teatral.










