ARTIGO DE OPINIÃO: A Grande Aventura de Portugal na obra de João Morgado. A vida desconhecida de Pedro Álvares Cabral

22/02/2023 18:30

Conheci o Escritor (premiado) João Morgado há uns cinco anos, no âmbito de um interessante projeto envolvendo a nossa Língua Materna, o Instituto Olhar da Língua Portuguesa no Mundo, durante um Encontro Literário em Belmonte. O objetivo é estabelecer pontes literárias entre os diversos povos que falam e escrevem em português, numa partilha de saberes e sabores. Logo simpatizei com o Homem, depois me familiarizei com o Escritor. E logo senti a necessidade de o convidar a estar presente em um dos eventos literários realizados em santa Cruz da Trapa, ao abrigo do projeto Vila Poesia. 

Poeta e romancista português, publicou o primeiro romance em 2010, “Diário dos Infiéis” e não mais parou de editar – tem neste momento sete romances publicados e muitas outras obras divididas entre o conto, a novela, a poesia ou as narrativas infanto-juvenis. Considera-se um “autor plural” já que apresenta uma obra diversificada nos temas e oferece diferentes linguagens, estruturas narrativas e estilos literários. 

Os meus heterónimos moram todos na mesma casa e olham o mundo pela mesma varanda, pelo que respondem pelo mesmo nome”. Esta policromia já lhe valeu nove prémios literários, adaptações para teatro e algumas traduções para inglês, russo, sérvio e chinês.  Foi distinguido com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cívico e Cultural, oficializada pela República Federativa do Brasil, pelo seu trabalho de investigação sobre Pedro Álvares Cabral. Recebeu ainda o Troféu “Cristo Redentor” pelo seu trabalho em prol da cultura luso-brasileira, entregue pela Academia de Letras e Artes de Paranapuã – Rio de Janeiro. 

Num vasto e mui completo conjunto literário, João Morgado reescreveu em romances históricos a Grande Aventura dos Portugueses na construção da primeira Globalização. Aqui destaco uma das obras deste conjunto, o Romance Histórico VERA CRUZ – sobre a vida desconhecida de Pedro Álvares Cabral

El-Rei D. Manuel sonhava com um império. Precisava de homens que soubessem dominar os oceanos, descobrir as terras, submeter os povos e amealhar as mais variadas riquezas para o seu trono. Pedro Álvares Cabral foi escolhido para comandar a maior frota do reino, rumo às especiarias do Oriente. E esta obra é uma maravilhosa (por vezes arrepiante, esgotante, revoltante) aventura, uma viagem tortuosa, mas que acabou em glória, com muitos proventos e a descoberta de um novo mundo – VERA CRUZ. Casualidade ou intencionalidade? Terá o capitão-mor desobedecido ao rei? E obedecido a quem? A obra procura responder a estas e outras questões, de forma provocatória para os leitores, conduzindo a novas viagens de descoberta na alma dos leitores. 

Numa narrativa cronológica, mas mais comprometida com o mundo humanista que preenchia a alma do Militar e Navegador Pedro Álvares Cabral, num discurso que não procura impingir ou doutrinar, a obra estabelece-nos e apresenta-nos um mundo de relações difíceis, num tempo de vigilância sobre a liberdade do pensamento, e onde o peso do poder da Coroa e da Igreja se digladiavam pela conquista do espaço e do tempo, onde as pessoas do povo eram meros peões de um tabuleiro secreto de causas sigilosas.

Esta obra pode ser lida na perspetiva da compreensão de um mundo em enorme mudança, em que se começa a desenhar a primeira globalização (na qual a nossa língua e cultura portuguesa se afirmaram como a internet aglutinadora de prodígios, saberes e sabores que se cruzaram e multiplicaram, na abertura da Europa aos novos mundos). 

A obra revela-nos a cultura e a mentalidade de Portugal (e da Europa) num tempo de aproximação aso valores humanistas, mas em que o contacto com outros povos e culturas desconhecidas levantavam imensas dúvidas e contrariedades de interpretação e julgamento, no confronto entre a rigidez da mentalidade teocêntrica e a necessidade de uma visão humanista e antropocêntrica dos novos mundos. João Morgado revela-nos nesta obra um Pedro Álvares Cabral dividido entre o Sagrado e as paixões (pelo amor conjugal, o amor a Deus, o amor à Pátria).  Esta obra lança pontes para reflexão sobre o presente e o futuro do “reino de Portugal” num contexto agora alargado de uma Europa (ainda) em construção. 

«Um dia percebeu que as palavras só existem se tiverem eco, se alguém mudar seu rumo depois de as escutar – o rumo do corpo ou do pensamento.»

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