ARTIGO DE OPINIÃO: A Cultura Como Sistema Fechado

22/01/2026 18:30

Escrevo como encenador e diretor artístico, a partir de dentro. Trabalho no sistema cultural português, conheço-lhe os mecanismos e enfrento-lhe as consequências. E é por isso que afirmo que a cultura em Portugal se transformou num sistema fechado, mais preocupado em gerir procedimentos do que em sustentar pensamento e criação. A gestão cultural foi progressivamente ocupada por lógicas administrativas que substituíram a visão artística e política. A competência deixou de ser critério central, a experiência no terreno tornou-se irrelevante e a cultura passou a ser tratada como um problema de gestão, não como um espaço de liberdade, risco e pensamento crítico. Neste contexto, a DGARTES surge para muitos criadores como uma miragem institucional: existe no discurso público como principal instrumento de apoio à criação, mas na prática apresenta-se como um labirinto de complexidade burocrática extrema. Para quem trabalha a partir da liberdade criativa, do pensamento artístico e da experimentação, o confronto com formulários, plataformas opacas, linguagem administrativa hermética e critérios voláteis torna-se um exercício de desgaste permanente. O problema não é a existência de regras. O problema é um modelo que parece desconfiar da criação e tentar enquadrá-la até à asfixia. Em vez de apoiar o risco, normaliza-o; em vez de reconhecer trajetos, exige adaptação constante a grelhas que pouco dizem sobre processos artísticos reais. A consequência é clara: quem cria passa mais tempo a justificar-se do que a criar. Esta lógica burocrática não é neutra. Favorece estruturas grandes, profissionais da candidatura e entidades com capacidade administrativa instalada, penalizando artistas independentes, projeto emergentes e práticas menos formatáveis. A cultura pública torna-se, assim, menos diversa, menos arriscada e menos viva. Fala-se de descentralização, mas o poder permanece concentrado, tanto na decisão política como no desenho dos mecanismos de apoio. Levar projetos ao território não equivale a criar ecossistemas locais de pensamento e criação. Sem autonomia real, sem confiança e sem simplificação estrutural, a descentralização não passa de encenação institucional.

O problema não são os artistas. O problema são os decisores. São os municípios que tratam a cultura como vitrina política. São os equipamentos públicos dirigidos como quintais pessoais. São os organismos de apoio capturados por redes de influência que se auto-alimentam e se protegem. Fala-se muito de pluralidade, mas o sistema é fechado, repetitivo e profundamente desigual. Enquanto diretor artístico, sei que criar exige risco, tempo e liberdade. Mas governar cultura exige coragem política para confiar nos criadores, aceitar o erro e assumir escolhas. O que existe hoje é um sistema que se protege através da complexidade, que confunde controlo com rigor e que transforma a cultura num exercício de sobrevivência administrativa.

A cultura não é um formulário nem um relatório. É um direito público e um espaço de pensamento crítico. Enquanto continuar a ser tratada como um problema a domesticar, continuará a afastar quem a faz. E um sistema cultural que afasta os seus criadores está, simplesmente, a falhar.

António Leal

Encenador/ Diretor Artístico

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