“A Missão” estreia, esta sexta-feira, no Teatro Viriato

09/11/2023 10:47

Levar ao confronto de nós próprios com os nossos preconceitos, fragilidades e falhas é um dos objetivos da nova peça da companhia Teatro da Cidade, que estreia já na próxima sexta-feira, dia 10 de novembro, no Teatro Viriato.  

O Teatro da Cidade regressa ao texto de reportório com a “A Missão”, a partir da obra homónima do dramaturgo alemão Heiner Müller, numa encenação coletiva. Fê-lo no seu primeiro espetáculo em “Os Justos”, de Albert Camus, em 2016, quando os atentados na Europa se faziam sentir. Agora, regressa, com a guerra instalada na Europa e no Médio Oriente. As urgências são outras, mas a temática guerra e da revolução repete-se. Neste texto está a Revolução Francesa, a Revolução do Haiti e a Revolta de escravos na Jamaica, mas também a invasão da Ucrânia pela Rússia e o conflito na Faixa de Gaza. Neste texto está a legitimidade de se assumir certas lutas, tomar certas decisões, e representar certas peças. 

Para a companhia, «abordar este texto hoje, é assim a forma de nos confrontarmos, ainda que de longe, com a nossa realidade” ou “uma tentativa de desmontarmos o sistema muito próximo onde nos inserimos e do qual fazemos parte».

«Começámos por querer fazer este texto com uma expectativa, que depressa se demonstrou defraudada. Aquilo de que estávamos à procura, a fidelidade ao texto ou à interpretação que tivemos do texto nas primeiras leituras, depressa se revelou secundário. Aliás, revelou-se desajustado. Alguma coisa não nos servia se colocássemos em evidência certas características do texto. Decidimos por isso, revelar o texto através da encenação, decidimos o incómodo da encenação que é um espelho do incómodo que sentimos na realidade, ao invés de contar a história pela repetição, ou evidenciar certos padrões de representação. Fomos assim ao longo deste processo assolados por fantasmas. Os fantasmas do passado que não estão resolvidos, que somos incapazes de compreender. Os mesmos fantasmas que nos continuam a assombrar o presente e também o futuro – o imperialismo, o colonialismo, a luta de classes, a escravatura, a guerra», explica a companhia.  

Em palco 5 atores-criadores que se multiplicam nas diferentes personagens e que partilham diferentes reflexões. O cenário provoca a sensação de labirinto e de percurso permanentemente por fazer, através de uma paisagem de escadas de diferentes alturas, que terminam sempre e parecem não levar a lugar nenhum, numa constante repetição. Em cena, a presença de um ator negro que não representa o papel da personagem negra, num claro convite a pensar na tensão entre representação e representatividade. «Esta peça é também uma oportunidade para colocar a espectadores e criadores a interrogação sobre o fenómeno de, num contexto como o português, ainda ser comum que o desejo de ver um corpo negro em cena aconteça só quando existe uma personagem assumidamente negra», refere a companhia Teatro da Cidade. 

Numa peça cheia de ambiguidades e que não se mostra como tendo uma forma certa de pôr em cena, este espetáculo é sobre o confronto com a nossa própria incapacidade de enfrentar as missões que mudariam o mundo, e ao longo da vida, por cansaço, condição ou condicionamento, quase nunca por convicção, deixamos escapar. Müller dá-nos por palavras, cheio de perigo, o terreno da inércia, da superficialidade, da mera sobrevivência. Num texto que já não é didático, mas um encontrão. 

“A Missão” é a 12.º produção da Teatro da Cidade, a segunda em estreita ligação com o Teatro Viriato, que é coprodutor da peça. O texto deste espetáculo foi escolhido em cumplicidade com um grupo de espectadores que participou no “Clube de Leitura” que o Teatro da Cidade realizou no Teatro Viriato em 2022. 

Os bilhetes para a estreia já se encontram à venda no site e na bilheteira do Teatro Viriato, e na BOL. 

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