ARTIGO DE OPINIÃO: A geração digital está em sofrimento?… e em Viseu?

02/05/2026 17:00

Em Portugal, estima-se que cerca de 90% dos jovens iniciem o uso de redes sociais por volta dos 13 anos, passando muitas horas por dia em plataformas como Instagram, TikTok ou Snapchat. Vivemos, assim, numa era em que estar online deixou de ser uma escolha para se tornar uma extensão natural da vida, sobretudo entre os mais jovens. A adolescência constrói-se hoje não apenas no mundo real, mas também no digital. Mas afinal, que impacto tem esta realidade na saúde mental? E como se reflete este fenómeno em contextos como o de Viseu?

À primeira vista, poderíamos assumir que viver numa cidade do interior como Viseu poderia funcionar como um fator de proteção. No entanto, no mundo digital, essa diferença praticamente desaparece. Um adolescente em Viseu tem hoje o mesmo acesso, os mesmos estímulos e as mesmas pressões que um jovem em Lisboa ou no Porto. A exposição é global e as consequências também.

Em contexto clínico, esta realidade começa a tornar-se cada vez mais evidente. “Joana”, 16 anos (nome fictício), chegou à consulta com sintomas de ansiedade, dificuldades em dormir e uma preocupação constante com a sua imagem. Passava várias horas por dia nas redes sociais, comparando-se com outras jovens. Sentia que nunca era “boa que chega”. O seu valor parecia depender do número de gostos que recebia. E este não é um caso isolado.

Os dados ajudam a enquadrar este fenómeno. Estudos europeus indicam que cerca de 1 em cada 7 jovens apresenta algum tipo de perturbação mental, com aumento consistente da ansiedade e depressão nesta faixa etária. E a maioria admite sentir dependência das redes sociais, sendo que uma parte significativa refere efeitos negativos no seu bem-estar. O mais relevante é que esta perceção já não é apenas clínica, mas também dos próprios utilizadores.

Outro aspeto relevante é o tipo de conteúdos consumidos. Muitos jovens relatam exposição a padrões de beleza irrealistas, automutilação ou sofrimento psicológico, muitas vezes apresentados de forma banalizada. Em paralelo, cresce a procura de informação sobre saúde mental nas redes sociais, onde a qualidade dos conteúdos é frequentemente desigual. Isto pode levar a confusão, autodiagnóstico e agravamento da ansiedade.

“Rui”, 19 anos (nome fictício), procurou apoio após vários meses de desmotivação. Acreditava ter várias perturbações psicológicas por se identificar com conteúdos online. Em contexto terapêutico, percebeu-se que o seu sofrimento estava mais ligado a uma fase de transição e incerteza pessoal. A informação consumida estava a intensificar a sua ansiedade.

Importa, no entanto, evitar uma visão simplista. As redes sociais não são, por si só, o problema. Podem ser espaço de ligação e apoio, sobretudo para jovens isolados. O desafio está na forma como são utilizadas e no espaço que ocupam na vida quotidiana. Quando substituem o sono, as relações presenciais e o descanso, tornam-se um fator de risco.

Em regiões como Viseu, o tema ganha particular relevância. Os jovens estão altamente expostos ao digital, mas continuam a existir limitações no acesso a apoio psicológico especializado. Soma-se o estigma ainda associado à procura de ajuda. O resultado é um cenário em que o sofrimento existe, mas nem sempre encontra resposta atempada.

A saúde mental dos jovens não pode ser analisada à margem das mudanças tecnológicas e sociais. Ignorar o papel das redes sociais seria tão redutor como culpabilizá-las por completo. O equilíbrio passa por promover literacia digital, pensamento crítico e, sobretudo, garantir espaços seguros onde os jovens possam falar sobre o que sentem, dentro e fora do digital.

Se as redes sociais fazem hoje parte do crescimento de uma geração, então também fazem parte dos desafios que essa geração enfrenta. Em Viseu, como no resto do país, a questão impõe-se: estamos a acompanhar esta mudança… ou a ignorá-la até chegarmos tarde a um problema que começa cada vez mais cedo?

David Almeida

Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu

www.davidalmeida.pt

965800042

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