ARTIGO DE OPINIÃO: Ahorita, de Rita Cunha

25/02/2026 17:30

Dou por mim a pensar: o que pode levar uma miúda de trinta anos, depois de uma licenciatura em medicina e alguns anos de prática profissional, a decidir abandonar tudo e ir viajar por tempo indeterminado?

Coragem. Em primeiro lugar.

A Rita foi minha aluna de Português no Secundário. Uma aluna com muito bons resultados a todas as disciplinas, como é apanágio de todos os alunos que querem entrar num curso de medicina em Portugal. Era de uma turma interessante e interessada nas aulas, o que hoje nem sempre acontece.

A Rita gostava muito de ler e escrevia muito bem. Organizava, com dedicação, o seu portefólio, no tempo em que os alunos de ciências o faziam também. Colocava nele textos que descobria e achava interessantes e outros que escrevia por sua iniciativa. Não me admirava, portanto, que a Rita um dia viesse a escrever um livro. 

Não conhecia, contudo, o seu gosto por viagens assim pelo mundo fora e, muito menos,sozinha com duas mochilas pesadas. Até porque a Rita sempre teve uma compleição física frágil, pelo menos aparentemente. Eu sabia que era escuteira e que isso a animava, mas, sinceramente, não estava a vê-la percorrer o mundo assim, largando tudo, sobretudo a irmã e os pais. Sim, somos muitas vezes surpreendidos. A Rita era uma aluna discreta, um pouco tímida até. 

Acabei de ler o seu primeiro livro «Ahorita – uma viagem de 171 dias pela América do Sul». E li-o de uma assentada. Com gosto. Com muito gosto, aliás. O livro já saiu há alguns meses, mas por várias razões ainda não tinha tido a oportunidade de o ler. Já não é a primeira vez que tenho o grato privilégio de ler livros escritos por antigos alunos. (Em boa verdade, a antiga sou eu!) E faço-o sempre com um prazer indescritível. Os alunos, a maior parte deles, ficam para sempre nas nossas vidas. São pedacinhos de nós também. Coloco os livros deles numa das minhas estantes e exibo-os com orgulho.

Voltemos ao livro da Rita. Muito bem escrito. Uma mistura entre a escrita diarística,com as datas e os lugares bem assinalados, e o relatório de viagem. Organizado em capítulos que separam os diferentes lugares que descobriu na Colômbia, no Peru e no Brasil. Contou as inúmeras aventuras que viveu.  As emoções, os medos, os perigos que enfrentou. Mas sempre com uma enorme alegria por todas as descobertas que foi fazendo, das paisagens extraordinárias e inóspitas, das pessoas de vários continentes, também elas em deriva de outros mundos, dos afetos, das amizades, das dificuldades superadas com orgulho de si própria. Algumas dessas aventuras viveu-as integrada numa equipa de voluntários encarregada de levar conforto, comida e até acompanhamento clínico a migrantes. Outras atravessando caminhos, hostels, meios de transporte diversificados num mundo totalmente desconhecido.

A Rita diz-nos que desde pequena teve um globo que lhe servia de candeeiro e que o olhava sempre com vontade de partir, conhecer todos aqueles lugares para onde sonhava voar, mesmo quando nunca tinha andado de avião. Diz-nos, ainda, logo num dos textos de abertura, que não conseguia iniciar um novo ciclo na sua vida, pensando alinhar numa rotina igual à de tantos outros que, depois dos cursos, iniciam as suas carreiras sem parar até à reforma. O modelo tradicional da minha geração e dos pais dela. Corajosamente, informou a família e foi «viajar sozinha o tempo que o coração o corpo e a carteira aguentassem». 

E aguentou nada mais nada menos do que 171 dias. Bravo! 

Quem me dera ter essa coragem de largar as rotinas instaladas e partir à descoberta dos outros e de mim. Como Gonçalo Cadilhe, um grande autor de relatos de viagens, diz: quanto mais distante viajamos, mais perto de nós estamos!

Ana Albuquerque


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