ARTIGO DE OPINIÃO: Maravilhoso álbum de memórias – O Corcunda de Notre-Dame

06/08/2025 18:30

A boémia dançava… ágil, leve e alegre, sem sentir o peso do olhar temível que pousava sobre ela, como chumbo.” O clássico imortal de Victor Hugo, que se desenrola na cidade eterna, e que mete em cena personagens inesquecíveis como Esmeralda, a bela cigana que enfeitiçou Dom Frollo, o arquidiácono, ou o corcunda Quasimodo, é aqui adaptado num magnífico preto e branco  pelo desenhador de O Lama Branco, Juan Solo, Drácula de Bram Stoker, e Frankenstein de Mary Shelley.

Caros amigos, hoje trago-vos como proposta uma obra de Antologia, daquelas que nos enchem a Alma de emoções e memórias. Mais uma autêntica obra prima narrada e desenhada com Mestria a preto e branco pelo génio criativo de GEORGES BESS (autor de Frankenstein e Drácula). 

França 1947, Georges Bess iniciou a sua carreira na banda desenhada na Suécia, desenhando histórias do Fantasma, de Lee Falk, mas foi o encontro com Alejandro Jodorowsky, no seu regresso a Paris, em 1987, que iria mudar a sua carreira. Com Jodorowsky, Bess vai realizar as séries O Lama Branco, Anibal 5 e Juan Solo, títulos que, a par com as séries que escreveu e desenhou, o ajudaram a afirmar-se como um nome incontornável da BD europeia. Depois do imenso sucesso das adaptações de Drácula de Bram Stoker e de Frankenstein de Mary Shelley, editada em Portugal pel’A Seita, Bess continua a produzir magníficas adaptações de clássicos da literatura universal, com esta obra imortal de Victor Hugo, O Corcunda de Notre – Dame, no original Notre – Dame de Paris. Esta versão pode ser descrita como uma interpretação poderosa, sombria e visualmente marcante. Expressivo e gótico: Bess utiliza um traço detalhado, sombrio e altamente contrastado, que se alinha perfeitamente com o tom trágico e melancólico da história. O uso do preto e branco é perfeito, a ausência de cor reforça o drama e o peso emocional, além de evocar o espírito da catedral e da Paris medieval. Numa composição cinematográfica, a narrativa visual é cuidadosamente estruturada, com enquadramentos que lembram o cinema expressionista, enfatizando a arquitetura, a solidão das personagens e o clima opressivo. Georges Bess respeita a complexidade do texto original, sem suavizar os temas de obsessão, fatalismo, injustiça e exclusão social. A oposição entre aparência e essência é central – o “monstro” Quasímodo mostra-se mais humano do que os belos e cultos homens da cidade. A adaptação ressalta a hipocrisia da sociedade, a opressão dos marginalizados e o poder corruptor da autoridade religiosa. A BD O Corcunda de Notre Dame de Georges Bess é uma obra visualmente arrebatadora e literariamente densa. Não é apenas uma adaptação, mas uma reinterpretação artística que homenageia o texto original de Victor Hugo enquanto oferece uma nova experiência emocional e estética ao leitor.

Georges Bess vive em Paris, e é casado com Pia Bess, uma artista e colorista, que tem também trabalhado no design e tramas das adaptações a preto e branco do seu marido.

Boas leituras de verão. 

Prof. Carlos Almeida


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