ARTIGO DE OPINIÃO: Farsa de Inês Pereira (adaptação para banda desenhada)

21/02/2024 18:19

Existem muitas dúvidas quanto à biografia de Gil Vicente, desconhecendo-se data e local de nascimento. Acredita-se que possa ter nascido em Guimarães ou em Barcelos. Poderá ter sido sepultado em Évora, se seguirmos o seu itinerário criativo (a sua última peço Floresta de Engamos foi apresentada em Évora). Indiscutível é a sua importância no panorama da génese da cultura literária e do Teatro em Portugal. Os seus textos refletem a existência de contactos profundos com fontes diversas, nacionais e estrangeiras, muita tradição lírica e conhecimento de novelas de cavalaria. Grande impulsionador do Teatro em Portugal, as suas peças acusam a influência da cultura popular, das artes e da música. Homem de origens humildes, aproveita para criticar numa atitude de vigilância os aparatos da corte e do clero, os vícios e as incoerências, por exemplo, através de uma sátira vincada e farta de situações. Gil Vicente não se limitava a escrever os textos, encenava-os e participava nas suas representações. Autor de cerca de meia centena de peças (ou “autos”), neles apresenta a sociedade portuguesa quinhentista, algumas idealizadas, outras vincadamente realistas. 

Tomada no seu conjunto, a obra de Gil Vicente assenta numa moral conservadora e de protesto face a algumas mudanças demasiado aceleradas, mas também tempos de uma nova ambição de poder e do culto das aparências. 

É neste contexto que nos surge a “Farsa de Inês Pereira”, agora reeditada em adaptação para a banda desenhada, na coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD. 

Inês é uma jovem que não se conforma com a vida que lhe estava destinada, permanecendo em casa a bordar (“lavrar”), aguardando um pretendente adequado para se casar e formar família.

Inês declara em versos a sua insubmissão perante este destino: 

Renego deste lavrar

E do primeiro que o usou.

(…) Eu hei de buscar maneira

De algum outro aviamento.

Esta determinação está no centro de toda a ação e explica as duas sequências que sustentam a narrativa: a moça que pretende com um escudeiro que lhe proporcione uma vida alegre, mas a solução tornou-se uma ilusão. Perante a desgraça, a segunda solução foi casar com um vilão, permitindo-lhe autonomia e aventura. 

Esta farsa reflete a tensão existente entre os valores do Portugal velho e aqueles que prevaleciam no Portugal novo dos descobrimentos, uma oposição entre uma sociedade agrária e conservadora, e uma outra orientada para o comércio e para as ilusões da riqueza e do bem-estar. 

Esta adaptação é da responsabilidade de André F. Morgado (professor e argumentista, tendo passado os últimos oito anos a desenvolver projetos pedagógicos para incentivar o interesse e gosto pela cultura junto do público infanto-juvenil, a par da prática docente que continua a exercer) e a arte é do ilustrador Jefferson Costa (autor de diversos quadrinhos, como a adaptação do livro Kiss me Judas, além de publicações como Quebra Queixo Technorama, A Dama do Martinelli, La Dansarina e trabalhos nas coletâneas Front e Bang Bang. Também participou das antologias norte-americanas Gunned Down e Outlaw Territory 3. Jefferson também trabalha com concept art de desenho de personagens e cenários em animações, tendo trabalhado em Historietas Assombradas para Crianças Malcriadas, da Cartoon Network Brasil, além das séries da MTV, Megaliga, Fudêncio, The Jorges e Rockstarghost.)

A coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em Banda Desenhada foi criada de raiz, pelo que todas as bandas desenhadas são inéditas. Segundo informa a editora, os argumentistas, ilustradores e responsáveis pelos dossiers pedagógicos são, na sua maioria, autores portugueses. Já foram também anunciados os 15 títulos da coleção, os quais adaptam 13 obras portuguesas, dado que Peregrinação e Os Lusíadas têm direito a dois volumes cada um.

Obra divertida, com uma narrativa veloz e sedutora, apresenta uma arte sugestiva, num registo que nem sempre tudo nos revela, deixando o leitor atento aos pormenores que cada um poderá incluir em cada vinheta. Uma obra que vai encantar os mais jovens e divertir os mais atentos críticos do texto de Gil Vicente. A não perder. 

Carlos Almeida 


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