Desde pequenos, muitos homens aprendem que devem ser fortes, resolver os seus problemas sozinhos e não demonstrar fragilidade. Expressões como “um homem não chora”, “tens de aguentar” ou “isso passa” continuam a fazer parte da educação de várias gerações. Mas o que acontece quando esta ideia de força impede alguém de reconhecer que está em sofrimento? E quantos homens continuam a sofrer em silêncio por acreditarem que pedir ajuda é um sinal de fraqueza?
Apesar de se falar cada vez mais sobre saúde psicológica, continua a existir uma dificuldade particular entre muitos homens: reconhecer o sofrimento emocional e procurar acompanhamento especializado. A Organização Mundial da Saúde tem alertado para esta realidade. Os homens tendem a procurar menos ajuda para problemas de saúde mental, sendo que fatores culturais, como a necessidade de autossuficiência, o controlo emocional e o receio de demonstrar vulnerabilidade, constituem obstáculos importantes. E na prática clínica, o sofrimento psicológico nem sempre se manifesta através da tristeza ou do choro. Em alguns homens, pode surgir sob a forma de irritabilidade, isolamento, dificuldades em dormir, consumo excessivo de álcool ou uma dedicação ao trabalho que deixa pouco espaço para a vida pessoal. Por detrás de alguém que parece permanentemente ocupado, distante ou irritado pode existir uma pessoa que simplesmente não sabe como expressar aquilo que sente. Importa compreender que estas dificuldades não resultam necessariamente de uma escolha consciente. Muitos homens cresceram em ambientes onde as emoções eram pouco valorizadas ou onde demonstrar sofrimento era interpretado como falta de força. Com o passar dos anos, aprendem a ignorar aquilo que sentem, convencidos de que conseguirão resolver tudo sozinhos. O problema é que aquilo que não expressamos não desaparece necessariamente. A ansiedade, a tristeza, a frustração ou o medo podem continuar presentes, influenciando as nossas relações, a forma como reagimos aos outros e até a maneira como nos vemos a nós próprios.
Em regiões como Viseu e Tondela, esta reflexão assume também particular importância. Em comunidades onde os valores tradicionais de masculinidade continuam presentes, falar sobre dificuldades emocionais pode ser especialmente desafiante. O receio do julgamento, a preocupação com a imagem perante os outros e a ideia de que os problemas pessoais devem permanecer dentro de casa podem contribuir para adiar a procura de ajuda. Mas talvez seja necessário repensar aquilo que entendemos por força psicológica. Ser forte não significa conseguir suportar tudo sem demonstrar sofrimento. Pode significar reconhecer os próprios limites, aceitar que nem sempre temos respostas e compreender que pedir ajuda também exige coragem. A psicoterapia pode desempenhar aqui um papel importante, não apenas na redução dos sintomas, mas também na compreensão da forma como cada pessoa aprendeu a relacionar-se com as suas emoções. Porque, muitas vezes, o desafio não é simplesmente aprender a falar sobre o que sentimos, mas permitir-nos sentir aquilo que durante tantos anos aprendemos a esconder.
Neste mês de novembro, talvez devêssemos olhar para a saúde masculina para além dos problemas físicos. Precisamos de ensinar às novas gerações que a vulnerabilidade faz parte da condição humana e que reconhecer o sofrimento não diminui ninguém.
Porque um homem que pede ajuda não é menos forte. É alguém que reconheceu que a sua saúde mental também merece ser cuidada.
E você, quantos homens conhece que parecem estar sempre bem, mas a quem nunca perguntou verdadeiramente como se sentem?
David Almeida
Psicólogo Clínico e da Saúde em Tondela e Viseu
965800042















